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Ann Druyan: "Que este seja o momento para despertarmos, para começarmos a pensar seriamente..."

BlogFNAC
Por BlogFNAC
Em 31/03/2020
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Ann Druyan: "Que este seja o momento para despertarmos, para começarmos a pensar seriamente..."

Entrevista a Ann Druyan, autora do livro Cosmos: Mundos Possíveis (Gradiva). Por Gradiva e National Geographic.

 

Mais do que escritora, Ann Druyan foi diretora criativa do Voyager Interstellar Message Project da NASA e diretora do programa da primeira missão espacial a vela solar, lançada num míssil balístico intercontinental russo em 2005. Em conjunto com Carl Sagan, seu falecido marido, escreveu vários êxitos de vendas do New York Times.

Nunca tencionou ser cientista, mas Carl fê-la apaixonar-se por esta área e queria investigar mais sobre questões do universo. Druyan é produtora executiva, escritora, diretora e criadora de Cosmos: Mundos Possíveis, transmitido pela primeira vez em 2020.

Em conversa com a Gradiva e a National Geographic, Ann Druyan falou um pouco sobre o percurso profissional e o seu novo livro.

 

 

Como surgiu a ideia da série Cosmos no final dos anos 70? Seria possível relatar-nos qual foi o seu envolvimento da altura?

 

Para Carl Sagan foi muito desmotivadora a atenção diminuta dada pelos media e pelo mundo em geral à aterragem da sonda Viking em Marte nos anos 70. E, no entanto, era a primeira vez que os nossos olhos, os nossos ouvidos, os nossos sentidos podiam testemunhar aquele evento extraordinário e observar Marte. Foi então que, em 1976, Carl Sagan decidiu criar uma série de televisão que permitisse a todos tomar consciência da importância, do significado e do entusiasmo dos cientistas perante aquele evento extraordinário e o que realmente representava aquela missão espacial a Marte.

Foi assim que a série Cosmos nasceu. Foi nesse momento que eu entrei na vida de Carl Sagan, que os dois entrámos na vida um do outro até do ponto de vista pessoal, e em que eu lhe revelei o meu sonho para a série. O Carl respondeu de imediato ao repto assim como o co-autor da série, Steven Soter, que era a peça perfeita para o puzzle ficar completo e ser perfeito. Cada um de nós contribuiu com diferentes aptidões para a série. O que é que eu podia trazer ao projecto não sendo cientista e acrescentar ao conhecimento destes dois cientistas? Podia assinalar o que era claro e o que era menos claro naquilo que queriam transmitir. Eu podia ser a voz da audiência porque, se não percebesse aquilo que estava a ser transmitido, provavelmente o público também não perceberia.

Além disso acrescentei a minha paixão pela história ao projecto incluindo certos pormenores como a história heroica de Hipátia e da grande Biblioteca de Alexandria acerca da qual eu já andava a escrever antes de conhecer o Carl. Em suma, erámos o trio perfeito em termos de criatividade. E guardo magníficas memórias da alegria com que partilhávamos ideias entre nós!

 

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A Ann e o Carl Sagan trouxeram o espaço para as salas de estar dos anos 80. Como foi produzir a série de televisão 'Cosmos: Mundos Possíveis' 40 anos depois?

 

A ideia foi, desde o início nos anos 80, transportar as pessoas para a realidade do cosmos. Recorremos a tecnologia de ponta na altura. Usámos por isso pela primeira vez uma câmara ligada a um computador com o objectivo de criar efeitos especiais.

Quarenta anos depois, a multiplicidade de possibilidades para simular a realidade natural ao longo do universo e de observar a Terra à mais pequena escala é impressionante. E creio que, nestes cinco anos de preparação da série e do livro, não houve nenhuma ideia, por mais extravagante que fosse, que eu e o co-autor da série, Brannon Braga, não tivéssemos conseguido concretizar.

Hoje temos à nossa disposição um arsenal vastíssimo de efeitos para simular a realidade do cosmos como nunca tivemos antes. A ideia de levar o telespectador a um exoplaneta ou de o transportar até ao domínio do mundo quântico tornou-se tão fácil que me espanta e entristece o facto destes recursos à disposição de todos não serem mais utilizados para mostrar e compreender a grandiosidade, a beleza e a complexidade da Natureza e de tudo o que nos rodeia e de serem tão frequentemente para mostrar como se podem destruir cidades, países, etc. Acho que isso é uma espécie de tragédia da nossa civilização.

 

 

A nova série Cosmos: Mundos Possíveis bem como o livro abrangem descobertas recentes no campo da astrofísica. Qual é a que considera mais relevante?

 

Bom, a mais significativa e relevante e que que demorou mais tempo do que aquele que mediou a primeira série Cosmos e esta última, foi a verificação da existência de ondas gravitacionais. Os cientistas começaram este esforço nos anos 60, dez anos antes de nós iniciarmos a primeira série do COSMOS e só recentemente é que se tornou possível. Esta descoberta dos cientistas do Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser (LIGO) foi extremamente importante porque conduziu à verificação da existência dos buracos negros que até então estavam apenas enunciados teoricamente. Nem mesmo Einstein acreditava que fosse possível verificar a existência de ondas gravitacionais por ser tão fraca a sua percepção no momento em que elas chegam até nós. Mas os cientistas do LIGO, sob o impulso de Kip Thorne, conseguiram esse enorme feito que nem mesmo Einstein considerava possível.

 

 

A Ann Druyan conheceu Carl Sagan melhor do que ninguém. Consegue imaginar qual seria a reação dele ao ler o seu mais recente livro COSMOS: Mundo Possíveis que agora sai em Portugal?

 

Hummmm. Confesso que não sei mesmo qual seria a sua reacção. Apenas sei o que eu gostaria que ele dissesse acerca dele. O que eu sei é que os meus filhos que também o conheciam muito bem me dizem que ele ficaria muito orgulhoso deste livro. Contudo, posso afirmar com toda a certeza que, a sua paixão pelo conhecimento sem limites ou preconceitos, teriam tornado este livro muito melhor caso pudéssemos tê-lo escrito em conjunto.

 

 

Carl Sagan disse uma vez que "somos feitos de pó das estrelas". A exploração do cosmos ainda é uma viagem de autodescoberta?

 

Que bonita e profunda formulação. Sim, sim, sim, definitivamente sim. Essa é uma das razões principais e talvez a mais profunda pela qual nós fazemos este tipo de ciência. É precisamente porque queremos saber de onde vimos. Para mim a mais bonita constatação que fizemos durante a preparação do Cosmos, e eu não me recordo se fui eu ou o Carl ou o Steve Soter que a formulámos, foi a de nós sermos um caminho para o cosmos se compreender a si mesmo. Esta é uma formulação profundamente espiritual. Procurar o sentido do cosmos, afirmar que o pó das estrelas ganhou vida e consciência para procurar as suas origens e o modo como tudo começou, se isto não é uma caminhada de descoberta espiritual então não sei o que será. Por isso, sim, é uma viagem de autodescoberta em todas as suas dimensões. Eu não sou uma cientista e não nasci com aquele fascínio inato pela ciência, mas tudo isto se transformou na minha busca pessoal. No momento em que eu percebi quão pessoal e universal pode ser este conhecimento do cosmos percebi também que queria dedicar o resto da minha vida à sua descoberta.

 

 

Numa época em que a tecnologia está a evoluir tanto, quase se diria à velocidade da luz, tem algum sonho "interestelar"?

 

Sim! Tenho imensos sonhos interestelares. Primeiro, tenho sorte. Este pode parecer um tempo vazio e sombrio em que a nossa auto-estima nunca esteve tão baixa como está agora, mas penso quão afortunados somos por viver numa época em que a ciência afastou a densa cortina da noite permitindo-nos ver e compreender as estrelas e tudo o que nos rodeia. Os inputs das descobertas científicas são tão poderosos como as quedas de água, trazem-nos tanto conhecimento. E, no entanto, ao mesmo tempo, assemelhamo-nos a uma civilização de zombies que parece não querer acordar para que possamos salvar-nos, salvar o nosso futuro, proteger os nossos filhos e netos… Neste período de quarentena devida ao vírus COVID19, as pessoas começaram subitamente a ouvir os cientistas e a levar finalmente a sério aquilo que eles dizem. E a minha esperança é que façam o mesmo com os avisos que andam a fazer há cerca de 20 anos relativamente ao aquecimento global, ao aumento da temperatura média do planeta e acerca dos danos que estamos a provocar ao nosso habitat, ao ambiente de todo o planeta e às outras espécies… Que este seja o momento para despertarmos, para começarmos a pensar seriamente e para começarmos a viver de acordo com a escala de tempo dos cientistas, não apenas até às próximas eleições ou de acordo com os mais poderosos interesses corporativos, mas tendo em mente de forma muito séria o futuro dos nossos descendentes.

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Ann Druyan Edição | Gradiva | março de 2020 a partir de :26,10 €