Clarice Lispector

«Clarice Lispector tornou-se famosa com a publicação de Perto do Coração Selvagem, no final de 1943. Acabara de fazer vinte e três anos, uma obscura estudante, filha de emigrantes pobres; o seu primeiro romance teve um impacto tão extraordinário que...
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Clarice Lispector
«Clarice Lispector tornou-se famosa com a publicação de Perto do Coração Selvagem, no final de 1943. Acabara de fazer vinte e três anos, uma obscura estudante, filha de emigrantes pobres; o seu primeiro romance teve um impacto tão extraordinário que, escreveu um jornalista, “não temos memória de uma estreia mais sensacional, que elevou a tal proeminência um nome que, até muito pouco tempo antes, era completamente desconhecido”. Mas apenas algumas semanas depois de esse nome começar a tornar-se conhecido, a sua portadora partiu do Rio de Janeiro.
Durante quase duas décadas, ela e o seu marido, um diplomata, viveram no estrangeiro. Embora tenha visitado regularmente o seu país, só regressaria definitivamente em 1959. Nesse ínterim, lendas propagaram-se.
O seu nome estranho, de aspeto estrangeiro, tornou-se objeto de especulação — um crítico perguntou-se se seria um pseudónimo, e outros perguntaram-se se ela não seria, na verdade, um homem. No seu todo, essas lendas refletem uma in- quietação, uma sensação de que ela não era o que aparentava: de que assumia “uma aparência totalmente diferente da realidade”.
Importa aqui sublinhar a palavra “aparência”. A bonita esposa de um diplomata, aparentemente um ordeiro pilar da burguesia brasileira, produzia uma série de escritos numa linguagem tão exótica que, nas palavras de um poeta, “a estranheza da sua prosa” se tornara “um dos factos mais esmagadores […] da história da nossa língua”. Havia em Clarice Lispector algo que não era o que parecia, uma estranheza amiúde registada por aqueles que se encontravam com a sua obra pela primeira vez. Mas raramente foi tão bem articulada como no final da sua vida, a meio da ditadura militar, quando se viu extensa e fisicamente revistada no aeroporto de Brasília. Perguntou à segurança: “Tenho cara de subversiva?” A mulher riu-se, e depois deu a única resposta possível: “Até que tem.”»
[Da Introdução de Benjamin Moser a Todos os Contos]