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Conhece o lado colecionista de Nuno Markl

BlogFNAC
Por BlogFNAC
Em 08/10/2018
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Conhece o lado colecionista de Nuno Markl

Desafiámos o Nuno Markl a escrever o editorial do Guia de Merchandising FNAC 2018 e ele contou-nos tudo sobre a cave que todos os colecionistas desejam ter. Fica a conhecer aqui a Cave do Markl.

 

Markl_2

 

Há dias, dei por mim a ver um daqueles programas de televisão americanos sobre acumuladores. Os “hoarders”. Perdido naquele universo de pessoas que não conseguem aceder às suas próprias casas-de-banho devido a pilhas de caixas de pizza vazias – ou não inteiramente vazias; há casas destas que preservam pizzas de 2007 – dei por mim, a dada altura, com um pensamento inquietante a formar-se na minha mente. Mantive-o sossegado num recanto do meu sótão mental repleto de macacos até ao fim do programa. Nessa altura decidi arriscar e confirmar as minhas piores suspeitas. Desci até à minha cave, respirei fundo e acendi a luz. Aconteceu o que temia: olhando para as estantes, prateleiras, mesas da minha cave, tive de abraçar a dura verdade. À minha maneira, sou um acumulador. Ligeiramente mais arrumado, organizado e limpo do que os protagonistas do programa dos acumuladores. Mas sou um acumulador. E a FNAC tem culpas no cartório, desde que expandiu a sua secção de merchandising!

 

E a FNAC tem culpas no cartório, desde que expandiu a sua secção de merchandising!

 

Há uma maneira fria e sinistra de olhar para este fenómeno do coleccionismo: que são corporações a querer fazer dinheiro à conta do amor de fãs por filmes, séries, comics. E ninguém diz que não. Mas depois há o outro lado: quando se ama a cultura popular, é normal querer viver-se a cultura popular para lá de si mesma. Gosto muito de ler os comics do Deadpool e adoro os dois filmes; ter em cima da minha secretária a figura de luxo da Hot Toys, uma reprodução rigorosa e meticulosa do “merc with a mouth” até à mais ínfima costura do fato e que permite combinações infinitas de posições de mão e de olhos, é um prolongamento natural do resto. Viver rodeado de encarnações físicas de um sem fim de criaturas – desde os miúdos de Stranger Things até ao “facehugger”de Alien – é divertido e inspirador, mesmo que tramado ao nível da limpeza do pó.

 

cave com puff

 

É normal, hoje em dia, encontrar pessoas a embirrar com o rumo que a saga Star Wars está a tomar. Eu gosto, mas leio frequentemente as opiniões de quem diz “hoje em dia, o Star Wars é feito só para vender bonecos”. Isto é um erro. Star Wars sempre foi para vender bonecos, e não há nada de errado nisso. A prová-lo está o lendário contrato de George Lucas com a empresa de brinquedos Kenner e a Fox, datado de 1977. Lucas sabia que tinha um universo complexo e detalhado que podia ser amado sob a forma de um filme, mas também sob a forma de inúmeras expansões da obra para fora da sala de cinema. Os romances e os comics, claro; mas, antes disso, as pequenas figuras da Kenner. Naquele que continua a ser um “case study” delirante sobre merchandising, quando o primeiro Star Wars estreou, a Kenner – que não tinha a colecção de figuras pronta a tempo – pôs à venda uma caixa de cartão vazia, consistindo numa espécie de reserva da primeira onda de figuras, que seria entregue mais tarde. Por isso quando me dizem que hoje em dia o Star Wars é só para vender bonecos, gosto sempre de lembrar que em 77, o Star Wars vendeu uma caixa de cartão vazia.

 

Os meus pais não tinham orçamento suficiente para me assegurar uma colecção de figuras de Star Wars. Em 1980 comprei o R2D2 na loja de brinquedos do bairro, a Serapico, e durante vários anos foi a única figura da saga que tive. Para brincar com as restantes personagens da saga, ia a casa do meu amigo e colega de escola, André, cujo pai viajava muito em trabalho e lhe trazia uma miríade de figuras da lendária primeira colecção da Kenner. O André tinha uma caixa de plástico cheia de personagens de Star Wars (ou Guerra das Estrelas, como na altura se chamava por estas bandas). Estamos a falar não apenas dos protagonistas essenciais, mas até daquele tipo de criaturas que aparece durante breves segundos em cenas como a da Cantina de Mos Eisley. Aquilo que muita gente vê, amargamente, como meras explorações comerciais do amor das pessoas – sobretudo das crianças – por uma saga espacial, foi, para miúdos como eu ou o André, bem mais do que isso. Brincar com as personagens de Star Wars, recriar sequências do filme ou criar histórias absolutamente novas, foi um exercício de imaginação importante para nós. Mais importante ainda quando olhado a esta distância, em que as crianças de hoje passam demasiado tempo sozinhas em mundos virtuais existentes em computadores, telemóveis e tablets.

 

É por isso que está na altura de deixar de olhar para o merchandising como um papão frio e ganancioso.

 

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É por isso que está na altura de deixar de olhar para o merchandising como um papão frio e ganancioso. É verdade que a palavra merchandising soa horrivelmente fria e calculista, mas a verdade é que, seja a desafiar a imaginação dos miúdos ou a transformar estantes de casas de adultos em museus de cultura popular, as memórias físicas - de plástico, vinil ou resina - de obras que nos falaram ao coração, são cultura popular em si mesma. E o aprumo com que são feitas hoje, por empresas como a NECA, a Sideshow, a Hot Toys ou a McFarlane Toys, elevam todas estas “tralhas” a arte. Abracemo-las!

 

(Mas com cuidado, para não as partir.)

 

 

Texto escrito por: Nuno Markl

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Anónimo

Em 24/11/2018

Gostei de ver na estante um águia do Espaço 1999. Boa!