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Entrevista Carminho: “Se tivermos a determinação de Amália, os sonhos podem ser concretizados”

BlogFNAC3
Por BlogFNAC3
Em 21/07/2020
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Entrevista Carminho: “Se tivermos a determinação de Amália, os sonhos podem ser concretizados”

Depois de tantas ocasiões com Amália na voz, Carminho aventurou-se na escrita de um livro que ensina às crianças quem foi a Rainha do Fado. Em conversa com a FNAC, a cantora fala-nos da sua estreia como escritora e do livro Amália: Já Sei Quem És.


Entrevista: Sónia Castro

 

O que a levou a querer contar a história de Amália Rodrigues às crianças no livro Amália: Já Sei Quem És?


Foi um desafio da editora Penguin Random House, que me deixou muito surpreendida. Nunca teria pensado em tal coisa, mas senti que seria bonito poder contar a história de Amália a crianças que ainda não a conhecem. Para poderem começar a descobrir esta figura tão rica e importante.

 

amália já sei quem és

 

 

A Carminho certamente já conhecia muito da vida de Amália. Complementou o que já sabia com algum trabalho de pesquisa?


Claro. Comecei logo a pesquisar várias fontes e a ler entrevistas. Queria trazer informação o mais fidedigna possível.

Depois segui cronologicamente aquilo que mais me marcou na vida dela. Uma vida determinante para a mudança do fado e do próprio paradigma da linguagem.

Amália foi alterando a sociedade através de algumas das suas escolhas – não só dos poetas que cantava, mas da forma como se vestia e estava. Tudo isto foi mudando a iconografia do fado e fazendo dela a figura que é.

Sei que Amália já não corre o risco de se perder na memória, mas [este livro] é mais um passo, pequenino, que ajuda a levar a figura dela para as gerações futuras.

 

 

Houve algum dado sobre Amália que a tenha surpreendido nas suas investigações?


Sim. Vão-se descobrindo sempre coisas novas, porque a história de Amália é muito rica. O facto de o avô dela contar o número de pessoas que paravam na rua para a ouvir cantar, por exemplo, foi um dos pormenores que salientei.

 

 

É verdade que chegou a cantar para Amália quando era criança?


Os meus pais tinham uma casa de fados. Eu ia lá bastantes vezes, ainda pequena, e cantava. Cheguei, por isso, a cantar para ela.

O encontro foi muito importante para uma rapariga de 12 anos que tem Amália como ídolo.

Agora, passados tantos anos, sei que não foi esse o momento mais importante com Amália. O encontro mais importante foi com a sua carreira e repertório.

 

 

Foi um desafio reduzir a 40 páginas o conteúdo de uma vida tão cheia?


Fui fazendo uma seleção cronológica e de factos importantes. Factos que também fossem interessantes para uma criança entender: as conquistas, os prémios que recebeu, o facto de ir gravar para o estrangeiro, de fazer cinema.

Não foi difícil fazer a seleção. Pus-me no lugar de uma criança e pensei o que me podia inspirar. Tentei passar a ideia de que sonhar e concretizar os sonhos é possível. E que não interessa exatamente de onde se vem e quem são os nossos pais e onde vivemos. Se tivermos a determinação de Amália, os sonhos podem ser concretizados.

 

 

Que reação espera que as crianças tenham ao conhecerem a história de Amália?


Que fiquem encantadas. Que as faça sonhar com a possibilidade de também poderem ser aquilo que sonharem.

 

 

Porque escolheu contar a história através de sextilhas [estrofes de seis versos]?


Foi uma ideia que tive para aproximar o livro do universo do fado. E levar as crianças a saber um pouco mais sobre o que é o fado. Se os pais forem encaminhando também essa informação, chegamos a outros caminhos. Abrem-se outras portas.

A sextilha é uma forma poética tradicional do fado e, por isso, em última análise, este livro pode ser cantado porque pode ser colocado no fado tradicional. As sextilhas podem ser cantadas porque estão escritas com a rima, com a métrica e com as tónicas de uma sextilha do fado.

 

 

Como se sentiu nesta estreia enquanto escritora? Publicar um livro era um sonho antigo?


Não. Foi um desafio completamente novo, no qual nunca tinha pensado.

Senti-me muito bem. Foi uma primeira vez e não quer dizer que se vá repetir, mas sinto-me realizada com o resultado. Sobretudo com esta parceria com o Tiago Albuquerque, nas ilustrações, que foi também uma forma de trazer mais informação ao livro.

Como as sextilhas são curtas, muitas vezes foi difícil colocar toda a informação que eu queria. O Tiago complementa colocando, por exemplo, o nome da casa de fados onde Amália começou a cantar. Também insere fotografias de [Alfredo] Marceneiro e Hermínia [Silva], que cantavam nessa mesma casa de fados.

Há sempre coisas por descobrir através das ilustrações, que não estão nas sextilhas.

 

Carminho (Cedidas por Ruela Music) 1

 

 

Como surgiu a associação ao ilustrador Tiago Albuquerque?


Já conhecia o trabalho dele e, por isso, sugeri-o. A editora gostou e ele aceitou. Foi a primeira escolha. Ficámos muito contentes. E fizemos este trabalho em conjunto, o que também foi muito importante.

 

 

Como se sente com o livro na mão?


Muito orgulhosa. Acho que é um momento especial na minha vida. Nesta altura em que não há concertos e não posso cantar ao vivo, ter este livro na mão representa uma espécie de esperança. Há sempre maneira de nos reinventarmos.

 

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