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Exposição / Fotografia

Odeon Hotel | Fotografias de Daniel Costa Neves

culturafnac
Por culturafnac,
Em 05/04/2019
99
Odeon Hotel | Fotografias de Daniel Costa Neves

05.04.2019 > 05.07.2019 | FNAC Leiria


Acordou e, depois de tomar um longo banho, vestiu o vestido que lhe tinha sido oferecido, anos atrás, pelo Conde de Arrentela. Fechou a porta do quarto e desceu a grande escadaria que dava acesso ao lobby.

Aquele odor que tão bem conhecia voltou a encher-lhe de ânimo o corpo. Aquela mistura de flores, velhas malas cheias de nada, perfumes exóticos, carpetes e tapetes já muito pisados e gastos, todos esses cheiros faziam daquele hotel o seu favorito.

Sentou-se na poltrona do costume e observou os hóspedes que deambulavam de um lado para o outro. 

O casal de refugiados de um país em guerra falava com o jovem bell boy; o comerciante oriental e a sua esposa, prontos para encetar mais um negócio, observavam o casal recém-casado, vindo de um frio país do Norte, que se preparava para sair; o velho marchant vendia mais um quadro valioso, juntamente com a sua bela assistente; a mãe de santo e sua filha pareciam flutuar em vez de andar; a jovem actriz de cinema, em súbita ascensão, dava entrevistas junto ao bar, enquanto a sua família se entretinha a jogar poker com os parentes de uma estrela do teatro; o comerciante judeu e a sua esposa bebiam mais um Martini, enquanto ouviam o pianista de sempre interpretar mais umas das suas canções favoritas. 

Todo aquele frenesi era como música para os seus ouvidos. Havia já 25 anos que ali vivia e, desde a altura em que se tinha apaixonado pela cidade, tinha acolhido o hotel e todos os seus hóspedes de uma maneira tão particular, que não conseguia sequer pensar na ideia de ter de abandonar aquele mundo mágico e misterioso.
Mas sombras negras e difusas habitavam o hotel. Eram corpos cobertos de vestes raras, malas seladas e conversas mudas. Entravam no hotel e, de cada vez que saíam, deixavam um rasto de ruína.

Ano após ano, a sua amada cidade tinha dado lugar a uma outra, igual a tantas outras cidades por onde tinha passado nas suas viagens pelo mundo fora. Essas sombras, já as tinha visto noutros países, nunca pensara que ali conseguissem chegar, àquela remota cidade do lado mais ocidental da Europa.

De repente, surgidos do nada, dois homens magros – um de cartola, outro de óculos escuros – tocam estranhos instrumentos no alto da escadaria. Tudo parou. E Dona Emília levantou-se da sua poltrona, atravessou o lobby onde todos pareciam sorrir subitamente à sua passagem, atravessou a enorme porta para a rua e qual não foi o seu espanto quando, ao olhar à sua volta, viu aquela cidade que tanto amava, voltar. Como se fosse um postal, fiel à imagem da sua primeira visita de há décadas.

Nunca mais ninguém a viu. Dizia-se que, juntamente com os homens magros e seus estranhos instrumentos, navegara rumo a Sul, onde as negras sombras não ousavam ir.

 

Pedro Gonçalves


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