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Filipe Melo e Juan Cavia em entrevista sobre o novo livro, Balada para Sophie

BlogFNAC3
Por BlogFNAC3
Em 21/09/2020
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Filipe Melo e Juan Cavia em entrevista sobre o novo livro, Balada para Sophie

Filipe Melo e Juan Cavia estão de regresso. Em conversa com a FNAC, a dupla apresenta Balada para Sophie, uma novela gráfica que demorou cinco anos a construir e que tem como ponto de partida a rivalidade entre dois pianistas franceses.

 

Filipe Melo: “Balada para Sophie é uma carta de amor ao que é a música no seu estado puro”


Filipe Melo (© Joana Linda) 4-v2


Como surgiu a ideia de Balada para Sophie

 

balada-para-sophie

 

Curiosamente, não sei explicar muito bem. O Juan e eu gostamos muito de tocar piano – ele numa vertente mais clássica e eu venho do jazz. Um dia estávamos a falar sobre pianistas clássicos e ele referiu um pianista chamado Samson François, que tem um disco chamado Le Poète du Piano. É um disco extraordinário, mas a capa é horrível.

Começámos a pensar como é que um disco tão bem tocado e com tão bom gosto pode ter uma capa com tão mau gosto. Pensámos quem seria aquela pessoa. E iam aparecendo ideias muito díspares para uma história que seria sobre música, rivalidade, ansiedade, identidade.

 

 

Mas para a criação dos dois protagonistas (aos quais deu o nome de Julien Dubois e François Samson) também se inspirou noutros pianistas, certo?

 

Sim. E qualquer pessoa que goste de música e de piano é capaz de ficar um pouco confusa quando eu disser quais os pianistas que me inspiraram.

Roubei muitas coisas de Keith Jarrett, Glenn Gould e Bill Evans para o François Samson. Para o Julien Dubois, inspirei-me em Liberace, Richard Clayderman, aquele universo mais de purpurinas. Também o Jerry Lee Lewis tem umas piroseiras.

 

 

Já afirmou que este livro é o seu mais pessoal e que expõe nele as ansiedades que assombram a sua vida. Afinal o que encontramos do Filipe Melo nestas personagens?

 

[Risos] Uma pessoa diz essas coisas e depois pensa: “O que raio me passou pela cabeça?” Sempre que alguém lança um livro novo diz “este é o mais pessoal”. Porque de facto é, mas só porque é o mais recente. Suponho que o autor se identificará mais com aquele livro no momento.

Tanto eu como o Juan temos um grande amor por contar histórias. Todas acabam por ser um pouco pessoais, talvez umas de maneira mais óbvia do que outras.

Por outro lado, quando falo em ansiedades, não estou a dizer que estou deprimido em casa, em posição fetal, a chorar. O que quero dizer é que há coisas que nos intrigam e nos despertam alguma curiosidade.

Uma pessoa vai lidando com o envelhecimento, com uma vida ocasionalmente instável, vai pensando na amizade, nas pessoas que passam pela nossa vida e desaparecem. É natural que, depois, quando está a contar uma história e a criar humanos que não existem, tudo isso vai lá estar.

Por isso, acho que é um disparate estar a dizer que este é o livro mais pessoal. O livro lida, de facto, com coisas que conheço bem. Nomeadamente a vida de um músico e de como se lida com estas questões de identidade musical. Também é um pouco uma carta de amor ao que é a música no seu estado puro.

 

 

Uma parte do livro acontece num período muito marcante da História – a Segunda Guerra Mundial. Fez alguma pesquisa sobre o tema?

 

Pode soar esquisito, mas adoro esse período da História. Há um contraste tão grande sobre o que é suposto ser a humanidade e o propósito do ser humano e o que se passou naquela altura, que foi a total desumanização e falta de empatia. Tenho um grande fascínio por isso porque, nessas alturas de desumanização, por contraste, se veem histórias humanas muito fortes.

Nos meus tempos da banda desenhada, comecei com As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy que, sendo um livro de aventuras, tinha uma série de referências à Segunda Guerra Mundial. O Juan e eu sempre fizemos bastante investigação, nem que fosse para termos a parte visual e histórica correta, por isso já conhecia bem a Segunda Guerra.

 

Contos-Ineditos-de-Dog-Mendonca-e-Pizzaboy

 

Para Balada para Sophie não foi preciso grande investigação, mas é sempre bom aprender um pouco mais sobre o que se passou. E há algumas coisas curiosas. Por exemplo, descobri que os alemães invadiram Paris no dia em que o meu pai nasceu.

 

 

No final do livro encontramos uma partitura com uma composição sua. Quem não sabe ler música não irá conhecer este tema. Podemos esperar que venha presentear os leitores com um miniconcerto nas redes sociais, por exemplo, para dar a conhecer esta composição inédita?

 

Nesse aspecto, estou a tentar fazer um finca-pé e ser antitecnológico. Quando Mozart, Beethoven, Chopin e outros queriam ouvir música, tinham de tocar ou falar com alguém que tocava. Eu queria retomar um pouco isso e fazer com que alguém que acabe de ler o livro tenha de sofrer um bocadinho a ler a partitura. Ou então não, porque há pessoas que leem muito bem. As que não tocam, tenho esperança que conheçam alguém que lhes possa mostrar a música.

No início não queria pôr uma partitura porque achava que qualquer música que eu fizesse iria ser pior do que a música que o leitor imagina. Mas o Juan insistiu comigo. Pensava – e eu penso também – que é original e novo: uma pessoa acabar o livro e ter a possibilidade de criar uma relação quase física com o instrumento, com o livro. Não me arrependo.

 

 

Então não há a perspetiva de vir a tocar esta peça?

 

Não... Se calhar um dia toco, mas o que eu gostaria mesmo era de ouvir alguém a tocar.

 

 

Pode-se dizer que este livro tem muito de cinematográfico. Podemos esperar uma adaptação de Balada para Sophie ao cinema, à semelhança do que aconteceu com “Sleepwalk”, um dos contos de Comer/Beber

 

comer-beber

 

Isso foi uma loucura! Uma pessoa foi parar à banda desenhada porque queria fazer filmes e não conseguia e, de repente, ironicamente, a banda desenhada é adaptada ao cinema.

Balada para Sophie é um livro grande, de época, com não sei quantas personagens... Se “Sleepwalk” já deu uma trabalheira, não consigo imaginar o que seria fazer este no cinema.

Há ainda a questão do dinheiro. Não me parece que seja uma possibilidade, a não ser que alguém pegasse nisto. Isso seria uma maravilha. Quer dizer, depende. Mas diria que, como princípio, gostava muito.

 

 

Este livro é dedicado a Beatriz Lebre, a estudante de Psicologia e pianista de 23 anos que foi morta em maio por um colega da faculdade. Conhecia a Beatriz? Porquê esta homenagem?

 

Sim, conhecia a Beatriz. Ela tocava muito bem. Tinha um potencial incrível.

Entristece-me que, quando uma pessoa procura algo sobre ela, vai encontrar sempre a tragédia. A tragédia sobrepõe-se ao trabalho maravilhoso que ela estava a desenvolver musicalmente, criativamente.

Esta dedicatória existe porque eu gostava que ela fosse lembrada. É um contributo mínimo. Espero que haja mais, como iniciativas musicais.

 

 

A colaboração com Juan Cavia começou há 15 anos. Que balanço faz desta dupla que trabalha, essencialmente, à distância?

 

Penso que nunca trabalhei com alguém ao longo de tanto tempo. Isso só é possível quando há algum entendimento e um objetivo em comum. Há uma série de peças que têm de encaixar.

Ele é uma pessoa generosa, sabe ouvir-me e eu acho que o sei ouvir a ele. É extraordinário, um talento fora de série. É um luxo trabalhar com ele. Digo isto do fundo do coração. Sou um sortudo por nos termos cruzado. Senão, nada disto aconteceria.

 

 

Juan Cavia: “É a primeira vez que terminamos um livro e não sabemos muito bem o que fazer a seguir”

 

Juan Cavia 02-v2

 

Balada para Sophie demorou cinco anos a ser terminado. Foi o vosso trabalho mais exigente?

 

Sem dúvida, mas não apenas pela duração do trabalho. Aliás, isso acabou por ser muito agradável porque nos propusemos a fazer as páginas que fossem necessárias e adaptar o tempo à necessidade narrativa.

Foi o livro mais exigente porque foi, até agora, o mais pessoal. O trabalho com mais conteúdo e aquele em que mais queria estar à altura do guião, porque considero que o Filipe fez um excelente trabalho.

 

 

Terminaram o livro já em contexto de pandemia. Esta situação condicionou de alguma forma o processo de trabalho?

 

Por um lado sim, por outro não. Estamos acostumados a trabalhar à distância de uns 11 mil quilómetros, mas felizmente pudemos ver-nos previamente pelo menos três vezes durante o processo. Essas poucas vezes em que estivemos juntos foram essenciais para clarificar questões mais subtis que são muito mais difíceis de esclarecer à distância.

O mais complexo, devido à distância, foram as provas de cor da gráfica, porque é um livro que tem uma cor muito precisa e era quase impossível fazer um bom acompanhamento através da webcam. No entanto, graças ao esforço de todos, conseguimos finalizá-lo bem.

 

 

Por falar em distâncias geográficas, como é que um argentino que trabalha com um português cria um cenário passado em França e em duas épocas tão distintas: 1933 e 1997?

 

O meu trabalho principal é como diretor artístico no cinema. Estou muito habituado a estudar cenários que não conheço. A reconstrução é uma parte fundamental da minha rotina. Além disso, atualmente contamos com muitos avanços tecnológicos que simplificam o acesso à informação. Depois é só estudar e aplicar essa informação.

 

 

O novo livro fala sobre pianistas. A relação do Filipe Melo com a música e, em particular, com o piano é bem conhecida. Qual é a sua ligação a este universo?

 

Estudei piano clássico dos 14 aos 21 anos com um antigo professor e solista da Eslovénia, Anton Soler Biljenski. Naquela altura da minha vida ainda tinha dúvidas sobre se me queria dedicar à música de uma forma mais séria. Acabou por se tornar um hobby, mas gosto muito de música clássica e sempre foi um campo de estudo para mim.

 

 

Quem são as suas principais influências na área da ilustração?

 

É muito aleatório, não sei se consigo destacar algum artista. Neste livro em particular fui bastante influenciado por um ilustrador da Malásia chamado Sonny Liew

 

 

Já têm planos para um próximo projeto em conjunto?

 

Ainda nada. É a primeira vez que terminamos um livro e não sabemos muito bem o que fazer a seguir. Mas já conversámos sobre os próximos passos na banda desenhada.

Por enquanto posso dizer que estou a tentar convencer o Filipe a publicar um manual teórico-prático de como desenvolver uma novela gráfica desde a ideia inicial até à edição.

 

 

Entrevista: Sónia Castro

Fotografias: Joana Linda (Filipe Melo)

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