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Filmes brutais que mereciam o Óscar de Melhor Filme (ou pelo menos a nomeação)

ExpertFnac
Por ExpertFnac
Em 02/02/2018
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Filmes brutais que mereciam o Óscar de Melhor Filme (ou pelo menos a nomeação)

 

Está oficialmente aberta a chamada “Oscar Season”, altura em que os “melhores filmes do ano” competem por cadeiras nas salas, pela atenção do público e pelas estatuetas mais valiosas do cinema – os Óscares. 2018 marcará a 90ª Edição da cerimónia e esta lista foca-se em filmes que, nos últimos 20 anos, também mereciam ter sido reconhecidos. 

Atenção: não interpretem mal aquelas aspas: a Academia nomeia bons filmes, o problema – se quisermos chamar-lhe um problema – são os filmes que também mereciam reconhecimento e, por vezes, nem sequer a uma nomeação têm direito. Como tal, decidimos fazer uma listagem de excelentes filmes que também mereciam o Óscar de Melhor Filme.

Nova atenção: as sugestões não devem ser lidas como “eles acham que x merecia mais o prémio do que y” – um filme não deve ser julgado em detrimento de outro. Além disso, as datas são relativas ao ano de estreia do filme em questão, embora a cerimónia da entrega do prémio tenha ocorrido, na grande maioria das vezes, em março do ano seguinte.


AMERICAN HISTORY X (1998)

american history x

Um clássico sobre ódio racial e, portanto, um filme que transcende o seu tempo. American History X contribuiu muito para a projecção de Edward Norton, um neo-nazi que é preso pelos seus crimes de ódio e que tenta depois retirar o irmão mais novo do profundo ciclo ideológico que fomenta um dos movimentos mais agressivos da nossa sociedade. David McKenna, o argumentista, desenha um ensaio riquíssimo e muito bem representado – provavelmente a melhor performance da carreira de Edward Norton (a par talvez com o seu papel em Birdman) – que pretende dizer que o ódio não conhece rostos 

Vencedor do Óscar: Shakespeare in Love


FIGHT CLUB (1999)

fight club

Fight Club é considerado por muitos a obra-prima de David Fincher, um clássico incontornável e um daqueles musts na lista de qualquer um que se diga fã de cinema. Quando estiveres a falar com alguém que acha que percebe disto, pergunta-lhe se já viu o Fight Club – se a resposta for ‘não’, conseguirás ver um cocktail de embaraço espalhado no seu rosto. A história de Edward Norton (sim a sua personagem não tem nome) e de Tyler Durden (Brad Pitt), o alter-ego mais fixe de sempre, é um marco no cinema. 

Vencedor do Óscar: American Beauty


THE MATRIX (1999)

thematrix

O momento em que Neo (Keanu Reeves) se inclina para trás e se desvia das balas disparadas por um Agent foi um ponto de viragem para o filme e para o cinema – naquela cena está a confirmação de que Neo pode mesmo ser o The One, bem como a confirmação de que Matrix é, a partir daquele momento, o pináculo dos efeitos visuais. Foi talvez o último filme a dar um grande passo em frente na abordagem aos efeitos visuais bem como aos filmes de ação – algo que Matrix: Reloaded veio a confirmar. 

A cena das balas: 

Vencedor do Óscar: American Beauty


MEMENTO (2000)

memento

Mesmo hoje, 18 anos depois, não existe nenhum filme como Memento. Se nunca viram, vejam, pois será uma experiência única – e só por isso, o filme já merecia ser premiado, da mesma forma que Christopher Nolan merecia vencer o Óscar de Melhor Argumento Original (foi nomeado) ou de Melhor Realizador. O processo da criação de Memento deve ter sido alucinante, pois este filme é, literalmente, contado de trás para a frente – no sentido em que as cenas estão divididas em capítulos que terminam precisamente onde o anterior começa, o que quer dizer que à medida que o filme progride, assistimos à construção de uma história e à desconstrução de outra; simultaneamente. 

Vencedor do Óscar: Gladiador


MULHOLLAND DRIVE (2001)

mulholland

O caso de Mulholland Drive é bizarro. Não há muitos filmes nomeados apenas para o Óscar de Melhor Realizador, mas Mulholland Drive é um deles. Muitas vezes referido como a obra-prima de David Lynch, este é um dos filmes mais polarizadores de sempre: diz-se que é um comentário brilhante sobre as maquinações de Hollywood, um ensaio sobre um mistério que não precisa de existir para ser misterioso, uma panóplia de narrativas indissociáveis e ao mesmo tempo desconexas, ou simplesmente uma série de ‘pulp’ que Lynch decidiu agrupar numa noite de folia e incentivos psicotrópicos. 

Independentemente da razão de ser de Mulholland Drive, facto é que se trata de um dos filmes mais debatidos da História do cinema e foi um pilar fundamental para que Hollywood começasse a tolerar narrativas obtusas. Umas das cenas mais famosas é o momento No Hay Banda – desfrutem:

Vencedor do Óscar: A Beautiful Mind


CIDADE DE DEUS (2002) 

cidade de deus

Nunca o belo conseguiu ser tão trágico e de uma forma tão constante como em Cidade de Deus, um filme brasileiro sobre a história de Zé Pequeno e Buscapé, dois habitantes da referida ‘cidade’ – uma favela no Rio de Janeiro que nos anos 80 se tornou num dos lugares mais perigosos do país. A realização de Fernando Meirelles traz algo de idílico, quase mágico, no retrato da belíssima cidade, um retrato que é sucessivamente manchado pela pobreza e pela violência. Mas mais marcante do que tudo o resto, é o facto de o dia-a-dia de crianças com menos de 5 anos passar por essa miséria, traçando-lhes assim um inescapável e negro destino.

Vencedor do Óscar: Chicago


ETERNAL SUNSHINE OF THE SPOTLESS MIND (2004)

eternal

A relação de Charlie Kaufman com o mundo foi sempre difícil, tal como a sua relação com o cinema. Mas a relação mais problemática de todas é a que tem com o público – diga-se que a sua criatividade extrapola todos os convencionalismos de storytelling, e que nem sempre as pessoas gostam de sentir que não estão a perceber o que se passa. A Academia atribuiu a Eternal Sunshine of the Spotless Mind o Óscar de Melhor Argumento Original, mas este filme merecia pelo menos uma nomeação para Melhor Filme. 

Vencedor do Óscar: Million Dollar Baby


CHILDREN OF MEN (2006)

Children of Men

A obra prima de Alfonso Cuarón é considerada por muitos um dos filmes mais importantes dos século XXI. Além de ter sido um dos primeiros a acender a chama pelas distopias – um tema que ainda hoje é um pilar em Hollywood –, Cuarón deu-lhe uma voz muito singular. Se hoje virem Children of Men, 377 distopias depois, verão um filme único, completamente irreverente. O filme foca-se num Reino Desunido e num mundo igualmente fragmentado, consequências globais do problema de infertilidade que assolou hamanidade. Há anos que nenhuma mulher consegue engravidar e a pessoa mais jovem do mundo é uma celebridade. 

Mas mais importante do que o conteúdo, neste caso, é a forma. A realização de Cuarón é soberba – aqueles planos contínuos são magia do outro mundo. Por favor, vejam. 

Vencedor do Óscar: The Departed


THERE WILL BE BLOOD (2007)

there will be blood

Um clássico intemporal e uma referência dos génios de Paul Thomas Anderson e Daniel Day-Lewis, que dá neste filme, provavelmente, a melhor performance da sua carreira – e isso, tratando-se de Daniel Day-Lewis, é dizer muito… 

There Will Be Blood é um filme perfeito. Meticulosamente realizado, muito focado nas suas personagens e conceptualmente poderosíssimo. Podemos descrever a interação entre Daniel Plainview (Day-Lewis) e Eli (Paul Dano) como uma batalha entre o capitalismo e a igreja. A relação entre estes dois atores e a singularíssima visão de Paul Thomas Anderson resultam num quadro cinematográfico pintado com as cores do mais perfeito storytelling – deve ser visto e revisto. 

2007 foi tremendo. Raras são as décadas em que o cinema nos presenteia com duas obras do nível de qualquer uma destas – pensar que estas saíram no mesmo ano é quase assustador. 

Vencedor do Óscar: No Country for Old Man


WALL-E (2008)

Wall-e

WALL-E não foi nomeado para a categoria de Melhor Filme e a questão que se impunha era, porquê? Num ano em que o Slumdog Millionaire se apresentava como o único favorito, teria sido a oportunidade perfeita para a Academia apimentar as coisas com um clássico da animação. WALL-E é profundamente ternurento e inacreditavelmente complexo, contando a relação entre dois robots sem que seja proferida uma única palavra que não os seus respetivos nomes – WALL-E e Eva. Isto enquanto constrói um universo de analogia bíblica – o nome Eva não é por acaso, simbolizando um recomeço protagonizado por inteligências artificiais – e sustentado por uma sólida crítica social que reduz a humanidade a um grupo de obesos demasiado automatizados para sequer conseguirem levantar-se de uma cadeira. Simplesmente genial, e verdadeiramente merecedor do reconhecimento ao nível do argumento e de Melhor Filme. 

Vencedor do Óscar: Slumdog Millionaire


THE DARK KNIGHT (2008)

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Talvez o filme mais importante para a dinâmica que hoje vivemos em Hollywood, baseada em super-heróis e sequências de ação. Com Batman Begins, Christopher Nolan provou ser possível fazer um filme de ação com uma boa história e com boas personagens – no fundo, um filme de ação/super-heróis que se leve a sério. Mas com The Dark Knight Nolan chega a um patamar nunca antes ou depois alcançado por outro filme de super-heróis. O enredo, a realização, a narrativa e, fundamentalmente, a força das suas personagens fazem deste um filme de culto – não há nada como The Dark Knight e nada influenciou tanto estes universos e este género como este filme. 

Na verdade, o sucesso de Dark Knight – DC Films – é o responsável pela ascensão da Marvel, que viu na aposta da DC um perigo iminente e uma oportunidade de ouro para criar um meta-franchising ao qual o mercado estava recetivo. 

Vencedor do Óscar: Slumdog Millionaire


INCEPTION (2010)

inception

Que Christopher Nolan vai ficar na História do cinema já não é novidade para ninguém, só lhe está mesmo a faltar a um Óscar – seja de Melhor Filme, Melhor Realizador ou Melhor Argumento (normalmente, Nolan é o produtor, realizador e argumentista dos seus filmes). 2010 podia ter sido o ano, uma vez que Inception é um daqueles filmes que será relembrado para sempre como um vulto do cinema – irreverente, complexo e altamente singular. 

O Discurso do Rei e Social Network são excelentes filmes, mas a ambição de Christopher Nolan com Inception transcende todas as barreiras. Falamos de conceito, realização e, acima de tudo, de criatividade – e numa altura em que a percentagem de filmes originais é apenas uma sombra quando comparada com a percentagem de filmes adaptados de outros meios ou até de remakes, diga-se que o argumento original está em vias de extinção e deve ser valorizado. 

Vencedor do Óscar: O Discurso do Rei


DRIVE (2011)


Talvez o principal responsável pelo revivalismo dos anos 80 que hoje tanto vivemos no cinema e na televisão. Stranger Things, o novo IT, e tantos outros clássicos que estão a regressar… Talvez sem o impacto de Drive as coisas tivessem tomado outro rumo. A banda sonora retro techno dos anos 80 – obrigado Kavinsky! –, a fotografia com os contraste puxados, muito néon e um herói sem rosto… E, neste caso, sem expressão – Rian Gosling é um ator monumental não apenas pelo que expressa mas, essencialmente, pelo que não revela, e Drive é um exemplo perfeito disso. Simplicíssimo, extremamente silencioso, muito compassado, com uma progressão lenta, mas metódica e sentida – mérito da mestria de Nicolas Winding Refn, o realizador. 

Drive é uma espécie de Pulp Fiction dos tempos modernos e manter-se-á no radar dos cinéfilos mais atentos durante anos. 

Vencedor do Óscar: O Artista


CLOUD ATLAS (2012)

cloud atlas

Este é polémico. Could Atlas é um daqueles filmes que ou se ama ou se odeia, tal como todos os filmes que têm a ousadia de colocar em questão a nossa razão de ser e o motivo de estarmos aqui – como por exemplo The Fountain, de Darren Aronofsky (que também podia constar nesta lista, relativamente a 2006). Estes filmes têm a tarefa inglória de ter de jogar com elementos que transcendem os convencionalismos do nosso conhecimento e, por vezes, os convencionalismos da clássica estrutura narrativa de um filme – é o caso de Cloud Atlas, um filme que conta não com uma, nem duas, nem três, mas seis linhas temporais. E como se isso não fosse desafio suficiente para um realizador/argumentista, os Irmãos Wachowski decidiram dar ainda outro passo em frente: o de usar os mesmos atores nas diferentes linhas temporais. 

É quase impossível que, em termos de estrutura narrativa, isto funcione – mas Cloud Atlas funciona. Cada linha de tempo tem o seu contexto histórico – mais, o seu contexto sócio-cultural – e a forma como cada linha narrativa se dilui na seguinte, correlacionado personagens e mensagens e construindo assim uma meta-narrativa poderosíssima e inspiradora .Desafiamo-vos a tentarem ver (e perceber) este filme. É um ensaio brutal para quem gosta de analisar cinema – não apenas a história, mas também a realização, montagem e estratégia de storytelling. 

Vencedor do Óscar: Argo


UNDER THE SKIN (2013)

Under the Skin

Desde a sua estreia, apesar de ter andado sempre tapado pelo ruído dos blockbusters, Under the Skin conseguiu, e ainda consegue, deixar a sua marca. É um filme que foi imediatamente considerado uma obra-prima, um clássico incontornável para o qual olharemos daqui a 30 anos como hoje olhamos para o trabalho de Kubrick – na verdade, o LA Weekly chegou mesmo a catalogar o filme como “a genuine revelation. We may finally have na heir to Kubrick.”

Under the Skin é um profundo ensaio sobre o que significa ser-se humano, uma complexa narrativa contada através de interações ocasionais com pedestres que não faziam a mínima ideia que estava a entrar num filme e, essencialmente, com ambiência e uma excelente fotografia. Scarlett Johansson dá a performance de uma carreira e Jonathan Glazer afirma-se como um dos realizadores mais singulares da sua geração. 

Vencedor do Óscar: 12 Years a Slave


WHIPLASH (2014)

whiplash

O primeiro filme de um realizador que já marcou o cinema. Damien Chazelle tinha apenas 28 anos quando começou a trabalhar em Whiplash, um filme brutal sobre a obsessão de um jovem aluno de música em ser o melhor baterista da banda – na verdade, o melhor da sua geração. A representação de J.K. Simmons (um professor que não aceita nada abaixo da perfeição) é mítica, bem como a de Miles Teller, mas o protagonista de Whiplash é mesmo o olho clínico de Chazelle, o mesmo que protagoniza em La La Land. 

Vencedor do Óscar: Birdman


INSIDE OUT (2015)

Inside Out

Levou uma ovação no Festival de Cannes e é considerado um dos melhores filme de animação de sempre. Inside Out é um filme tão perfeito quanto irreverente e um daqueles que deixa os pais a pensar que têm de o mostrar aos filhos daqui a uns anos – mais do que uma aventura animada, esta obra-prima da Disney é o mais divertido ensaio sobre psicologia.

Vencedor do Óscar: Spotlight


LA LA LAND (2016)

lalaland

Haters gonna hate, mas a verdade é que são poucos os filmes que conseguem atingir o nível de magia de La La Land – uma ode aos mais clássicos musicais, mas, acima de tudo, uma prova de que o cinema ainda pode viver sem a efervescência dos efeitos e dos truques. Rian Gosling e Emma Stone cantam, dançam, representam, fazem sapateado e Damien Chazelle fecha ruas de Los Angeles para fazer coreografias mirabolantes filmadas em plano contínuo. La La Land grita cinema e música por todos os lados e é um filme tremendamente bem realizado – um detalhe que fez de Chazelle o realizador mais novo da História da Academia a ser galardoado com um Óscar de Melhor Realizador. 

Vencedor do Óscar: Moonlight


BLADE RUNNER 2049 (2017)

blade runner 2049

Dunkirk é uma obra-prima, mas Dennis Villeneuve atingiu o impossível. Depois de Ridley Scott ter criado o clássico de todos os clássicos que é Blade Runner – um filme que Villeneuve considera perfeito e uma das razões que o levou a entrar no universo da realização – esse filme tornou-se numa obra de culto. Extremamente influente, adorada pelos seus evangelizadores, Blade Runner tornou-se numa espécie de religião seguida por uma elite muito específica bem como uma referência de perfeição cinemática almejada por poucos e conseguida por ainda menos.

Posto isto, a mera ideia de ousarem imaginar uma sequela corria o risco de ser reprimida por toda a fan base. Mas a produção avançou, Dennis Villeneuve aceitou e Blade Runner 2049 superou todas as expetativas. Não havia outra forma de este filme acontecer. A fotografia de Roger Deakins é uma constante pintura – como podem ver apenas pelo trailer –, a banda sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfish é surreal e Rian Gosling dá mais um passo para se tornar num daqueles ícones que entraram e brilharam em todos os clássicos de culto de uma geração, como outrora aconteceu com Harrison Ford. Se gostam de cinema e cometeram o erro de perder a oportunidade de ver este monumento no grande ecrã, não percam a oportunidade de, pelo menos, saber que ele existe – vejam-no em casa, no maior ecrã que conseguirem e com umas colunas que lhe façam jus! 

Vencedor do Óscar: aceitam-se apostas nos comentários… ;)

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Anónimo

Em 15/02/2018

Provavelmente, outros filmes deveriam estar aqui... Quanto ao Óscar deste ano, aposto - mas considero-o mesmo o melhor filme que vi recentemente - no "The Shape of Water. Uma palavra: belíssimo!

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