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Ildefonso falcones: “barcelona perdurará com o tempo, por mais que a maltratem”

BlogFNAC3
Por BlogFNAC3
Em 10/03/2020
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Ildefonso falcones: “barcelona perdurará com o tempo, por mais que a maltratem”

Ildefonso Falcones falou-nos do seu novo romance histórico, O Pintor de Almas, centrado num período temporal em que, como o próprio indica, “Barcelona ardeu”.


O Pintor de Almas

 

O-Pintor-Almas

 


O seu livro mais recente, O Pintor de Almas, conta a história de dois lutadores, na revolução operária da Barcelona do princípio do século XX. Porque escolheu este período do modernismo?

Escolhi-o por duas razões: a primeira é que ao longo desses anos foi quando se desenvolveu a Barcelona modernista que conhecemos hoje, um movimento artístico, neste caso arquitetónico, que nos deixou o maior expoente do mundo. A segunda é que, juntamente com essa magnificência, a opulência de uma classe social privilegiada e a competição entre ricos e abastados na construção de edifícios maravilhosos, convivia uma sociedade convulsionada, uma massa trabalhadora atolada na miséria, com cerca de dez mil crianças abandonadas nas ruas.

Uma situação que marcou um dos maiores contrastes sociais da era moderna. Uma sociedade em que os trabalhadores começaram a tomar consciência do seu papel na política e no destino do seu país e que terminou com a revolução. A Semana Trágica, na qual Barcelona ardeu.

 

Quais são as principais diferenças que encontra entre essa Espanha e a Espanha atual?

O reconhecimento dos direitos sociais dos trabalhadores. A luta contra a pobreza. O acesso à educação e à saúde gratuita e de qualidade. A própria democracia. Um grande salto entre o que era uma sociedade injusta, cruel com os necessitados, e a que hoje vivemos, a que chamamos de bem-estar, que apesar de se ter deteriorado continua a ser uma sociedade onde podemos continuar a progredir.

 

Barcelona antiga é uma personagem recorrente nos seus livros. Podemos dizer que a cidade onde nasceu e onde vive é a sua musa?

É, de facto, a cidade onde nasci e onde vivo. A cidade que perdurará com o tempo, por mais que a maltratem. O que não sei é se é a minha musa. É difícil acreditar nesses tipos de componentes mágicos.

 

Esta é a história de um homem que tenta encontrar o seu lugar no mundo. Qual foi a sua inspiração?

Tal como no contraste social a que me referi anteriormente, queria representar uma dicotomia semelhante através das personagens: Dalmau, um artista que nos levará e mostrará o mundo da explosão criativa do modernismo, das suas cores, das suas formas, do seu sentido, e a sua namorada, Emma, uma jovem comprometida com a luta social, ativista rebelde e revolucionária. Entre os dois, um mundo inteiro.

 


“Não sei se Barcelona é a minha musa. É difícil acreditar nesses tipos de componentes mágicos.”

 

 

A Catedral do Mar

 

A-Catedral-do-Mar

 

Um romance histórico exige muita investigação. Que preparação fez para escrever este livro?

A bibliografia para escrever uma história é piramidal. Começas num ponto, numa época, numa ideia: o modernismo, a luta social. A partir daí as necessidades multiplicam-se, até que terminas nos detalhes: o consumo de morfina ou heroína, a comida, os carros ou os métodos de produção de cerâmica, tão usada nos edifícios modernistas.

Em alguns temas existem fontes suficientes, ao ponto de ter de prescindir de maiores conhecimentos. Em outros são escassas, como os relacionados com a Semana Trágica que, na minha opinião, ainda oferecem circunstâncias insuficientemente resolvidas pelos estudiosos.

 

A História é, sem dúvida, uma paixão sua. Porque é que a advocacia se sobrepôs a ela?

Porque eu também gostava de Direito. Fui um apaixonado pelo processo judicial, pelo exercício no fórum, durante três décadas.

 

Disse numa entrevista que ser advogado é um modo de descer à terra, como uma terapia. E a escrita? Para si o que significa escrever?

É a terapia oposta. Se o exercício do Direito é pragmático, a literatura é criativa, fantasiosa. Duas facetas das pessoas que têm de tentar torná-las compatíveis.

 

Deixou de exercer advocacia. Sente falta do pragmatismo da profissão?

Não. Creio que não. A literatura é capaz de preencher a vida profissional por completo e talvez seja bom que, com o passar dos anos, a sua existência possa encher-se de cor.

 

 

“Se o exercício do Direito é pragmático, a literatura é criativa. Duas facetas das pessoas que têm de tentar torná-las compatíveis.”

 

 

Os Herdeiros da Terra

 

herdeiros 

 

Voltando ao romance O Pintor de Almas, enquanto estava a escrevê-lo, sofreu duas grandes tragédias pessoais – foi-lhe diagnosticado cancro e perdeu o seu irmão. A escrita deste romance ajudou-o a escapar à realidade sombria?

Não é uma pergunta simples de responder. Eu estaria inclinado a sustentar que, para escapar da realidade, é necessário um estímulo externo: um filme, um livro, uma conversa, uma distração. Quando escreves, estás sozinho. Precisas de pensar, desenvolver ideias, transferi-las para um papel. Todas essas tarefas têm muitas fendas, como que para que a nossa mente se desvie para a realidade que nos rodeia.

Quero dizer que, pelo menos para mim, o processo de escrita não é obsessivo. Há momentos em que realmente te abstrais e te voltas para a escrita, mas a jornada é muito longa. De qualquer forma, ajuda, sim. Suponho que sim.

 

É autor de vários bestsellers, entre os quais A Catedral do Mar e Os Herdeiros da Terra. Foi galardoado com vários prémios. Um dos seus livros foi adaptado para uma série da Netflix, também ela premiada. E até já tem uma rua com o seu nome. Atualmente, quais são os seus sonhos e ambições?

Viver.

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