Revista ESTANTE

Ler pela primeira vez: Kazuo Ishiguro

BlogFNAC3
Por BlogFNAC3
Em 03/10/2019
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Ler pela primeira vez: Kazuo Ishiguro

Britânico, nascido no Japão, herdeiro de Jane Austen, Kafka e Proust. De que estás à espera para conheceres a obra de Kazuo Ishiguro, o mais recente vencedor do prémio Nobel de Literatura?

 

 

Se juntarmos Jane Austen a Franz Kafka, que tipo de escritor obtemos? Segundo Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca, Kazuo Ishiguro. Bem, não exatamente. “Há que adicionar à mistura também um pouco de Marcel Proust. Depois mexemos, não demasiado, e ficamos com a escrita de Ishiguro.”

O autor de origem japonesa – naturalizado britânico – é o mais recente vencedor do prémio Nobel de Literatura. Aos 63 anos, é um dos nomes mais aplaudidos da literatura britânica contemporânea, ou não tivesse sido nomeado quatro vezes para o Man Booker Prize, prémio que chegou a conquistar em 1989 – já veremos com que romance.

Nunca leste Kazuo Ishiguro? Se queres matar essa curiosidade, mas não sabes por onde começar, este artigo é para ti.

 

Começa pelo mais emblemático


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O livro que lhe valeu o tal Man Booker Prize em 1989? Os Despojos do Dia. No entanto, a distinção não é o único motivo pelo qual o deverás ler. A verdade é que, à primeira vista, a narrativa poderá não despertar a tua atenção: um mordomo com 30 anos de serviço vai dar um passeio pelo campo, reflete sobre o passado e volta para casa. Tão simples quanto isto. 

Então o que há de tão fascinante neste livro? Acima de tudo, a forma como Ishiguro joga com o tempo e as memórias; como faz um retrato psicológico e, ao mesmo tempo, social do mundo pós-Segunda Guerra Mundial; como usa a ironia e a comédia para desconstruir o sentido da vida e a natureza humana.

Por mais profunda que seja esta história, não foram precisas mais do que quatro semanas para que Kazuo Ishiguro a escrevesse. Quatro semanas a que ele e a sua mulher, Lorna, chamaram de “Crash”. “Durante o Crash, não fazia mais nada sem ser escrever entre as 9h00 e as 22h30, de segunda-feira a sábado. Tinha uma hora para almoçar e duas para jantar. Não via, muito menos respondia, a qualquer e-mail, nem me aproximava do telefone. Ninguém vinha a minha casa. A Lorna, apesar do seu horário preenchido, fazia a minha parte na cozinha e na arrumação da casa”, recordou o autor num artigo que escreveu para o The Guardian. Tudo porque, devido ao sucesso que alcançou com o seu segundo romance, An Artist of the Floating World, deixou de ter o tempo de que precisava para escrever.

A inspiração, essa, veio essencialmente de dois lugares: O Vigilante, filme de 1974 realizado por Francis Ford Coppola, cujo protagonista (interpretado por Gene Hackman) terá servido de “modelo inicial” ao mordomo Stevens; e a música “Ruby’s Arms”, de Tom Waits, que ajudou Ishiguro a traçar a viagem emocional do personagem.

O resultado final é avassalador. E ecoou de tal forma a nível internacional que o livro acabou por ganhar uma adaptação ao cinema, com Anthony Hopkins no principal papel.

 

Começa pelo mais inspirador


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Não é por acaso que dizemos que Nunca Me Deixes é o romance mais inspirador de Kazuo Ishiguro. Foi o próprio autor que o disse, justificando-se com o facto de ser o seu único livro em que todas as personagens são “identificáveis”, permitindo-nos criar uma empatia imediata. 

Mas foquemo-nos na história: quando era criança, Kathy H. vivia na escola privada de Hailsham, uma zona da Inglaterra rural onde os jovens estavam completamente isolados do mundo exterior e eram levados a acreditar que sem eles a sociedade estaria em risco. O livro começa quando Kathy, então uma mulher de 31 anos, se reencontra com duas amigas de infância e, juntas, decidem encarar as verdades escondidas da sua infância.

É um ótimo livro para começares a inteirar-te da obra de Ishiguro – talvez até um melhor primeiro livro do que Os Despojos do Dia –, uma vez que tem um ritmo pausado, permitindo-te absorver todas as sensações evocadas pelo autor. Uma nota de aviso aos leitores mais sensíveis: há uma grande possibilidade de desatarem a chorar.

À semelhança de Os Despojos do Dia, Nunca Me Deixes também mereceu uma adaptação ao grande ecrã. Andrew Garfield, Keira Knightley e Carey Mulligan fizeram parte do elenco.

 

Começa pelos mais misteriosos


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Outro dos mais aplaudidos romances de Kazuo Ishiguro é Quando Éramos Órfãos – um “tesouro escondido”, nas palavras de muitos fãs do autor. De facto, há muito de enigmático nesta história, que acompanha a vida do famoso detetive Christopher Banks ao longo de cinco décadas – incluindo a sua obsessão com um mistério que ficou por resolver: o do desaparecimento dos seus pais. 

Contada assim, até parece ser relativamente linear, mas a verdade é que esta narrativa requer um grande poder de concentração do leitor, dada a forma como surge desconstruída. Sim, atenção: existem enormes saltos no tempo e no espaço.

Esta incoerência narrativa é algo que Quando Éramos Órfãos partilha com uma outra obra de Ishiguro: Os Inconsolados. Este mistério psicológico acompanha um pianista que, a ponto de dar o concerto da sua vida, começa a deparar-se com pistas sobre o seu passado. É uma história complexa e polarizadora que muitos encaram como obra de arte e outros como obra falhada. Uma leitura “estranha e difícil”, nas palavras de Ishiguro, mas que irá encher as medidas dos mais destemidos.

 

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Começa pelo mais recente


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O Gigante Enterrado é, sem sombra de dúvida, o mais distinto livro de Kazuo Ishiguro. Dizemos isto porque é o seu primeiro livro dedicado ao fantástico, adotando um cenário medieval que lembra as histórias de J. R. R. Tolkien ou George R. R. Martin.

Sem querermos revelar demais, podemos dizer que o livro explora uma lenda britânica da era medieval, com um dragão, uma maldição e uma história de amor à mistura.

Se dúvidas ainda existissem da qualidade da obra, Neil Gaiman, autor de referência no género da fantasia, esclarece-as num artigo de opinião para o New York Times: “Ishiguro não tem medo de abordar grandes temas pessoais, nem de usar os mitos, a história e o fantástico como ferramentas. O Gigante Enterrado é um romance excecional. Faz o que os livros importantes fazem: fica na nossa mente muito depois de ter sido lido, recusando-se a sair, forçando-nos a lê-lo e relê-lo.”

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