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Lídia Jorge: “A vida parece não ter um sentido e eu escrevo para tentar encontrá-lo”

BlogFNAC3
Por BlogFNAC3
Em 19/06/2020
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Lídia Jorge: “A vida parece não ter um sentido e eu escrevo para tentar encontrá-lo”

Lídia Jorge leu uma crónica por semana, durante um ano, ao microfone da Antena 2, no programa Em Todos os Sentidos. Agora, na altura em que celebra quatro décadas de carreira, falou com a FNAC sobre o livro com o mesmo título que acaba de publicar.

 

 

Em Todos os Sentidos reúne 41 crónicas que leu na Antena 2, em 2019, e nas quais abordou os mais diversos temas do mundo atual. Que visão tem sobre este mundo que, tal como diz o subtítulo do programa, “continuará redondo”?


Apesar de tudo, o mundo continua a ser redondo.

Uma velha canção de marinheiros dizia: “Porque a Terra é redonda, haveremos de nos reencontrar.” No imaginário de então, as pessoas concebiam a superação da distância como uma aventura. Os dias de hoje abateram as distâncias, estamos todos sobre um ecrã. Mas é virtual, só em parte cumpre os desígnios da Humanidade.

Se não nos deslocarmos fisicamente e não ficarmos face a face, a nossa solidão acabará connosco.

 

Em-todos-os-sentidos

 

Se desmaterializámos os livros a ponto de prescindirmos deles e já não lermos nenhum, folha a folha, papel a papel, uma parte de nós será selvagem.

No mundo plano do ciberespaço, que tudo alcança e achata, muitos estão a propor a defesa da diversidade, da vizinhança, da subjetividade criada pelo pensamento lento, produzido ao ritmo das nossas passadas. Eu estou com esses.

 

 

Nestas crónicas assume não só um pensamento crítico sobre a realidade como viaja às suas memórias mais íntimas. Regressar ao passado é um exercício que desassossega ou reconforta?


Reconforta. Quando se regressa ao passado percebe-se que uma parte do que se sonhou não se cumpriu e que muito do que se ganhou perdeu-se. Mas consegue-se avaliar a surpresa que veio sem esperarmos, o sentido que muita coisa ganhou quando na altura parecia loucura.

Alguns afetos ganham um relevo que antes não tinham e figuras houve que ficaram apontando os caminhos pelos quais ainda hoje avançamos.

Eu trouxe da infância episódios das ondas do mar, das águas escassas das fontes, da convivência com os animais domésticos que me fazem pensar. Lições de um tempo em que não éramos tão sanguinários com a Terra, éramos sobretudo seus colaboradores.

O passado oferece um alfabeto que permite, por simples projeção, ler a carta do futuro que está por vir. Homens e mulheres que já cá não estão, mas que permanecem no horizonte e falam da transitoriedade, da fragilidade, da necessidade da beleza, do desejo de uma revelação para isto fazer um sentido.

 

 

Na introdução de Em Todos os Sentidos afirma que, “como não podemos vencer o tempo, escrevemos textos que o desafiam, a que chamamos crónicas”. Que luta é esta contra o tempo?


Os modernistas costumavam associar o tempo humano à ondulação do mar. As vidas humanas seriam como as ondas que surgem, crescem, desabam, desaparecem. É uma feliz comparação, mas é uma comparação inquietante. O que fica da ondulação?

Cada um de nós encontra a sua resposta, ou não encontra resposta nenhuma definitiva e vai-se alimentando da pergunta, o que é uma forma de viver com elevada dignidade.

A crónica, certa crónica, a que não pretende responder ao imediato dos dias, é uma tentativa de fazer suspender a onda e dirigir-lhe perguntas.

Nestas crónicas, suspendi as ondas no regresso à casa do campo, no cais dos caminhos de ferro, nos aeroportos, nos encontros com os meus colegas de escrita, com os leitores, com cidades próximas, cidades longínquas, com os astros e o espaço que dizem que é finito e a mim me parece infinito e escandalosamente grande e misterioso para a nossa dimensão e o nosso tempo humano.

 

 

Como se sentirá o leitor ao terminar de ler Em Todos os Sentidos?


Como posso saber? Eu gostaria que os leitores se sentissem acompanhados, que respondessem às minhas considerações com as suas próprias.

É isso que me acontece quando leio as crónicas de Clarice Lispector, Agustina Bessa-Luís ou Rosa Montero. Leio-as e as suas palavras são o início das minhas, fico situada num lugar da conversa, faço parte de um diálogo que não se ouve, mas processa-se na parte de nós a que alguns chamam psique, outros espíritos ou alma.

Fazer considerações significa estar com os astros. Perder os astros chama-se desastre.

As crónicas dos escritores ajudam-nos a não deixar que o nosso pensamento se afunde no desastre. Eu gostaria que as minhas contribuíssem para essa espécie de estímulo a um fio da conversa que nos junta em certos momentos de intervalo em que apetece pensar. Estar com os astros.

 

“As crónicas dos escritores ajudam-nos a não deixar que o nosso pensamento se afunde no desastre.”

 

 

Escrever uma crónica por semana implica uma urgência diferente da velocidade da escrita de um romance ou de um conto?


Implica um compromisso para com uma equipa. Enquanto a escrita de um romance ou de um conto não tem prazo – o próprio texto vai impondo as suas exigências de correção, síntese ou expansão e vai-se construindo sem calendário –, o compromisso com a data marcada e o horário certo obriga a uma disciplina de obediência a um quadro prévio. É um bom exercício.

O meu problema é a forma, se assim se pode dizer. Encontrado o tema, julgo que vou escrever três mil caracteres e a certa altura estou nos seis mil. Para usar um termo que era caro ao Vergílio Ferreira, depois da largueza não me resta mais nada senão a poda.

 

 

No projeto radiofónico, que diferenças encontrou entre a palavra escrita e falada? Ao escrever cada crónica tinha sempre presente que o público ia ouvir e não ler e adaptava-se nesse sentido? Ou abdicou dessa preocupação?


Pensava nos ouvintes, mas não foi preciso fazer esforço, era natural. Simples e direto. As crónicas passavam às terças-feiras, pelas 11h00, e depois repetiam às 18h00, ao fim do dia. Confesso que escrevia sobretudo para o fim do dia.

Achava que as lia para pessoas cansadas. Pessoas que regressavam do emprego ou que já estavam em casa depois de um dia de intenso trabalho. Desejava contar-lhes um conto, criar-lhes uma situação visual, uma cena concreta a partir da qual pudesse fazer algumas considerações, ou simplesmente deixar no ar, sem remate nenhum.

O diretor da Antena 2, João Almeida, juntou a música, o “Almost Blue”. Casava muito bem. Escrevi estas crónicas para ir ao encontro das pessoas fatigadas, na tentativa de lhes oferecer um momento de pausa e consideração.

 

 

Em Todos os Sentidos, o programa, desenvolveu em si o “bichinho” da rádio?


Parece que sim. Ao contrário de outros espaços de comunicação, a rádio não é um meio prepotente. Não invade com violência. Entra no carro ou em casa ou durante um percurso como uma companhia que consente que se mantenha parte do silêncio de que precisamos para convivermos com música, notícia e pensamento.

Com a rádio, não nos sentimos violentados pela invasão estridente que muitas vezes confunde e atordoa. Eu diria que tem os estímulos suficientes para ao mesmo tempo nos mantermos ligados e livres.

Penso isso há muito tempo. Agora foi apenas uma colaboração. Uma experiência boa.

 

“Escrevi as crónicas de Em Todos os Sentidos para ir ao encontro das pessoas fatigadas, na tentativa de lhes oferecer um momento de pausa e consideração.”

 

 

Numa entrevista passada afirmou: “Estou sempre à espera de escrever um belo livro que ainda não escrevi.” Esse livro está a caminho? Ou é tempo de pausa?


Quando me despedi das crónicas foi para me dedicar a um novo livro, mas, entretanto, surgiram muitas contrariedades. Para quem não houve contrariedades nestes últimos meses? Mas eu aprendi a não forçar demasiado o tempo.

A vida resulta de um compromisso entre o projeto e o seu incumprimento. Quando se é muito jovem fica-se desesperado, depois aprende-se a manter o balanço. Também se aprende que, muitas vezes, o comboio errado leva-nos à estação certa. Há de haver uma certa semana em que volte ao livro.

 

 

Publicou o seu primeiro romance, O Dia dos Prodígios, em 1980, o que significa que este é o ano em que completa 40 anos de carreira literária. O que a continua a inspirar para a escrita?


O desejo de fazer uma contraproposta à vida. A vida parece não ter um sentido e eu escrevo para tentar encontrá-lo. Não nascemos para morrer, há aqui um desajuste por explicar. Eu tenho de me queixar desse desajuste.

 

O-Dia-dos-Prodigios

 

Depois há a questão dos irmãos. Se o somos, e parece que sim, então porque não nos comportamos como fratria? Zango-me com o facto e escrevo.

E o mundo tem beleza, mas não é absoluta, pelo menos a nossos olhos. Ora as pessoas nascem e formam-se com desejo de atingir esse absoluto. No mundo atual, em que existem aparelhos maravilhosos, há quem tire fotografias desesperadamente à espera de encontrar a imagem do belo absoluto. Eu escrevo palavras à espera de encontrar uma frase que condense tudo isso. Ando à procura.

 

Entrevista: Sónia Castro
Fotografia: Frank Ferville

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