Revista ESTANTE

Mia Couto e José Eduardo Agualusa: “Para escrever a quatro mãos é preciso uma amizade"

BlogFNAC3
Por BlogFNAC3
Em 16/10/2019
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Mia Couto e José Eduardo Agualusa: “Para escrever a quatro mãos é preciso uma amizade"

Mia Couto e José Eduardo Agualusa, dois dos principais nomes da literatura lusófona, juntaram-se num alpendre em Moçambique para escreverem as peças que haveriam de resultar no livro O Terrorista Elegante. Em conversa com a revista Estante, explicam como surgiu esta ideia.

 

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O Terrorista Elegante e Outras Histórias foi escrito a quatro mãos. Poder-se-á dizer que também foi visto a quatro olhos? Editavam e reviam os textos um do outro?

JEA: Sim.

MC: Sim, os primeiros [textos] eram feitos por correspondência. No último, trabalhámos mesmo juntos – a produção era logo vista e revista. Isto no momento de escrever as peças. Depois, convertemos outra vez para conto.

 

Onde se encontraram para escrever as histórias?

JEA: No lugar onde o Mia Couto coleciona palmeiras, que é um lugar extenso…

MC: [risos]

JEA: Ele é o segundo maior colecionador de palmeiras do mundo. Tem uma coleção de 56 espécies de palmeiras. Não é verdade?

MC: Quase 52. Deixei de fazer, porque não se fazem coleções de coisas vivas.

JEA: Então é o quê? Uma aglutinação? O que é que elas estão lá a fazer todas?

MC: Eu não quero considerar que seja uma coleção.

JEA: Vamos dizer que é uma criação. O Mia Couto é um criador de mochos e palmeiras. Nesse local que o Mia tem, escrevemos o livro à sombra das palmeiras.

 

Mas não querem revelar o local? É secreto?

JEA: Não, não. Foi em Boane, Moçambique.

MC: Nos arredores da capital. Tenho uma casa de campo lá perto de um rio. Ficámos ali fechados durante um tempo.

JEA: Fechados não. Abertos.

 

Parece um bom local para escrever histórias.

MC: Sem dúvida que é.

 

Estes contos começaram por ser peças de teatro pedidas pelo grupo A Barraca e pelo Trigo Limpo – Teatro ACERT. Porque as mudaram para contos?

JEA: Primeiro, porque queríamos fazer essa experiência – ver como as peças ficariam como contos. Algumas partiram de contos e depois voltaram num formato diferente. Segundo, porque evidentemente é mais fácil publicar contos do que peças de teatro.

 

O primeiro conto, “O Terrorista Elegante”, no qual um angolano com uma vestimenta requintada é suspeito de planear um ataque terrorista em Portugal, faz uma paródia à criação de um terrorista por necessidade?

JEA: Não, a ideia era mostrar como as sociedades contemporâneas, sobretudo no ocidente, necessitam por vezes de fabricar inimigos e terroristas para responder aos seus próprios medos.

 

MC: Aquilo nasceu de uma notícia, uma coisa real que aconteceu em Lisboa: um angolano foi preso no aeroporto e acusado de estar a planear um ataque terrorista. Nós acompanhámos essa notícia e percebeu-se que o homem tinha alguma perturbação e que, por isso, não havia nenhum perigo real. Para nós era uma boa oportunidade para brincarmos e questionarmos esta ideia de ver o outro que é diferente, que é singular, como um potencial inimigo.

 

Ao longo dos três contos encontramos algumas cenas de violência, principalmente dirigida a mulheres. Isto foi uma tentativa consciente de tentar passar uma mensagem sobre este tema?

MC: Não é que tivéssemos intenções claras, mas evidentemente, no mundo de hoje, não é possível escrever e não passar por isso. Em vez de fazer denúncia como se fosse um texto político, queríamos sobretudo que isso surgisse numa história em que as mulheres têm uma dimensão, um papel que invertesse isso, e de repente são elas que comandam.

 

Há quanto tempo se conhecem? Como começou esta amizade entre um angolano e um moçambicano?

JEA: Há mais de 30 anos. Desde que começámos a escrever, na verdade.

MC: Quando publiquei o meu primeiro livro de prosa, que era um livro de contos, o Agualusa fez uma crítica num jornal. Foi assim que ficámos amigos. Ele estava num jornal, mas também já estava a preparar ou a publicar o primeiro livro de prosa dele.

 

Os dois também já estiveram nomeados para importantes prémios literários, como o Man Booker ou o Dublin Literary Award, este último ganho pelo José.

JEA: O Mia ganhou prémios importantes. Ganhou o principal prémio dos Estados Unidos, que aqui não é muito conhecido mas que é um prémio muito famoso no país, o Neustadt International Prize for Literature, em 2013.

 

Há algum prémio que vos falte?

JEA: O Nobel. Este ano inexplicavelmente perdemos [risos]. Inexplicavelmente, quando tinham oportunidade de dar aos dois, esqueceram-se de nós. Não sei como é que isto foi acontecer. Já não temos muito mais tempo. É melhor darem-nos logo [risos].

MC: Estamos, é claro, a brincar. É algo que está longe da nossa cabeça. Coitado do escritor que pensa nisso.

JEA: Ninguém escreve a pensar em ganhar prémios. Escrevemos porque precisamos de escrever, porque temos necessidade de escrever, porque gostamos de escrever, porque ainda nos divertimos com a surpresa de encontrar histórias.

 

Mas, por falar no Nobel da Literatura, como veem as recentes distinções de Olga Tokarczuk e Peter Handke?

JEA: Nem eu nem o Mia comecemos a obra desses escritores. Ficámos curiosos e vamos ler. É também para isso que serve o Nobel: para revelar autores. Por isso, vamos procurar. Mas eu não conheço, de facto.

MC: Estou como o Zé. Estou curioso. Vamos procurar.

 

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Quais são os vossos planos após esta publicação de O Terrorista Elegante? O Mia Couto, por exemplo, lançou muito recentemente um novo livro, O Universo num Grão de Areia, uma coletânea de textos de intervenção cívica. Planeiam voltar a publicar um livro juntos?

MC: Não temos o plano de voltar a escrever juntos. Só se acontecer por acaso. O Zé está a acabar um romance. Acho que está muito mais adiantado do que eu.

JEA: Não sei se estou mais adiantado. Gostaria de terminar até ao final do ano e tenho o compromisso de entregar à editora até essa data. Mia, não sei se também tens esse compromisso…

MC: Não tenho.  O que eu disse à editora é que antes de abril não acabo o meu.

 

Podemos saber os títulos?

JEA: Eu tenho um, mas é provisório, pode não ficar: Uma Cama no Terraço.

MC: Eu não tenho títulos provisórios. Vou fazendo títulos diferentes à medida que escrevo as histórias.

JEA: Sim, ainda temos muito tempo. Eu ainda tenho muito tempo para mudar, para irritação do meu editor porque, por razões de marketing, ele gostaria que não mudasse mais – acho que quer começar a trabalhar o título. Mas posso mudar até entregar o livro.

 

Numa entrevista anterior, o José referiu que O Terrorista Elegante exigiu uma “intimidade grande” e que não era possível “se não houvesse amizade”.

JEA: Sim, acho que sim. Por um lado, temos um método semelhante: escrevemos quando ainda não temos uma estrutura do livro pronta. Vamos escrevendo para encontrar essa estrutura, a história. Isso ajuda. Mas também, ao mesmo tempo, escrevemos mesmo juntos. Para isso é preciso uma amizade e admiração grandes. E a aceitação de que o outro deve intervir naquilo que estamos a sugerir.

MC: E uma certa disponibilidade para não nos considerarmos donos do texto.

 

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Se tivessem de recomendar uma obra um do outro, qual destacariam e porquê?

JEA: Eu acho que com o Mia é fácil, porque ele tem uma obra impressionante, a trilogia As Areias do Imperador, que em alguns países está a ser publicada já como um livro único. É realmente extraordinário, não só pela dimensão do livro, mas também pela ousadia e coragem de escrever um livro histórico, subvertendo uma série de ideias feitas e criando personagens que acho que vão ficar para a história da literatura moçambicana.

MC: No caso do Zé, é muito difícil escolher. Como estou a trabalhar agora numa coisa que é a reinvenção do passado, penso em O Vendedor de Passados como uma sugestão de que o passado pode ser inventado e reinventado. Acho que é o livro que eu sugiro. Amanhã se calhar é outro.

JEA: Eu dei logo três livros teus [risos].

 

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A propósito, qual foi o último livro que leram?

JEA: Eu agora tenho estado sempre em viagens e viagens. No avião terminei de ler Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway.

MC: Esse era aquele livro que estavas a ler no computador?

JEA: Não, no iPad.

MC: Eu acabei de ler uma coisa que não é de ficção. As Mentiras que Nos Unem, de Kwame Anthony Appiah, um filósofo ganês. É sobre as identidades inventadas. É um assunto que me parece muito atual e ele pensa e escreve bem.

 

Por: Carolina Rodrigues
Fotografias: Direitos Reservados (Mia Couto) e Pedro Loureiro (José Eduardo Agualusa)

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