Revista ESTANTE

O dia em que Saramago ganhou o Nobel

BlogFNAC3
Por BlogFNAC3
Em 03/10/2019
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O dia em que Saramago ganhou o Nobel

Foi há mais de 20 anos que José Saramago fez com que todos os portugueses crescessem três centímetros, isto nas palavras do próprio. Em causa a conquista do Nobel da Literatura, o mais celebrado prémio literário do mundo, por parte de um homem de origens humildes, que não o esperava e que nunca deixou que a fama lhe alterasse as convicções.

 

5 livros fundamentais de José Saramago

 

Memorial do Convento


Memorial do Convento

(1982)

 

 A-Ano-da-Morte-de-Ricardo-Reis-josé-saramago


O Ano da Morte de Ricardo Reis

(1984)

 

 

evangelho

 

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

(1991)

 

 

ensaio sobre


Ensaio Sobre a Cegueira

(1995)

 

 

As-Intermitencias-da-Morte-josé-saramago


As Intermitências da Morte

(2005)

 

 

Quinta-feira, 8 de outubro de 1998. No aeroporto de Frankfurt, ao final da manhã, um homem aguarda sozinho a hora de embarcar no avião que o conduzirá a Madrid e, posteriormente, à ilha espanhola de Lanzarote. Acaba de deixar a Feira do Livro local e está pronto para voltar a casa. Não lhe passa pela cabeça que está a ser procurado.

“Senhor José Saramago”, chama uma voz de mulher pelo altifalante na sala de embarque. O sobressalto leva a que uma hospedeira se aproxime: “É o senhor?” E continua: “É que está aqui uma jornalista que quer falar consigo. O senhor ganhou o prémio Nobel!”

 

As grandes novidades da vida chegam-nos muitas vezes nas ocasiões mais triviais. E é assim, sem protocolos ou formalidades, que José Saramago recebe a notícia de que é o primeiro escritor de língua portuguesa a vencer o prestigiante Nobel da Literatura. A Academia Sueca elogia-lhe as “parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia” com que torna “constantemente compreensível uma realidade fugidia”.

Mas não é nisso que pensa. É em Pilar del Río, a mulher. Sente-se triste por não estar com ela naquele momento. E dá-se conta, como há de recordar depois, que “a alegria, se se está sozinho, é nada”.

 

Ao telefone, Zeferino Coelho, o editor, pede-lhe que retorne à feira. Saramago recusa, quer voltar imediatamente para junto de Pilar, mas o editor insiste e lá o consegue convencer. Encaminham-no para a saída por um imenso corredor, completamente deserto. 

“Não me lembro de nenhum outro momento da minha vida em que tenha sentido isto: a solidão agressiva”, diz anos mais tarde. “Estava ali sozinho, um senhor com a sua gabardina e a sua malinha, com a qual tinha ido a Frankfurt por dois dias para uma conferência, e voltava um senhor cuja vida tinha mudado totalmente nesse instante.”

Enquanto caminha, resmunga para si próprio: “Tenho o Nobel, e o quê?”

 

“Como é que isto me aconteceu a mim?”


Quinta-feira, 10 de dezembro de 1998. Num banquete de gala, em Estocolmo, José Saramago ergue-se para proferir um discurso. Os dois meses após o anúncio da conquista do Nobel foram um corrupio de entrevistas e declarações públicas.

“Tenho a consciência de que não nasci para isto”, revelou numa dessas ocasiões. “É assombroso porque, cada vez que acontece algo, neste caso o Nobel, pergunto-me se aquilo que fiz ao longo da vida deu para construir uma obra que chega a merecer o mais célebre prémio literário do mundo. Como é que isto me aconteceu a mim? Uma pergunta para a qual, honestamente, não tenho resposta.”

 

Como poderia não ser uma surpresa para o escritor português? “Nasci numa família de gente muito pobre, camponesa e analfabeta, numa casa onde não havia livros e em circunstâncias económicas que não me teriam permitido entrar na universidade”, disse noutra entrevista. “Nada prometia um prémio Nobel.” E, no entanto, ganhou-o.

 

Desde o primeiro momento, no aeroporto de Frankfurt, até subir ao pódio para receber o galardão, Saramago passou o tempo a garantir que este não haveria de o mudar enquanto homem e escritor. 

“Este prémio Nobel vai continuar a ser quem é, participando como até aqui, com intervenções como até aqui, naquilo que considerar útil, indispensável e necessário”, explicou quando chegou a Lisboa. “Não assumirei o prémio Nobel como uma ‘miss’ de beleza que tem de ser exibida em toda a parte. Não aspiro a esses tronos, nem poderia, claro.”

E acrescentou: “O homem é o mesmo e continuará a escrever.”

 

Ao discursar no banquete de gala, com os olhos do mundo postos nele, Saramago prova a verdade das suas palavras ao decidir falar a maior parte do tempo sobre o não cumprimento integral da Declaração Universal dos Direitos Humanos no mundo. Agradece, por fim, aos editores, tradutores e leitores. Termina com o elogio a todos os escritores portugueses e de língua portuguesa: “É por eles que as nossas literaturas existem. Eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam, portanto.”

 

Um Nobel que peca por tardio

 

“Ai, sou um ladrão! Roubei-te o Nobel da Literatura. Perdoa, mas no ano que vem tu vais tê-lo.” Foi esta a mensagem que o italiano Dario Fo deixou a José Saramago no dia 9 de outubro de 1997, depois de ser anunciado vencedor do galardão. O português era apontado como o principal favorito ao Nobel, isto depois de ter passado parte do ano a percorrer a Suécia, convidado por uma agência publicitária local. Houve inclusive quem, no ano seguinte, tenha apontado a sua vitória como resultado desta espécie de golpe publicitário. A maior parte, porém, considerou que a distinção apenas pecou por tardia e o crítico americano Harold Bloom chegou a dizer que “entre os mais recentes, o único Nobel bem atribuído foi o de Saramago, que o honrou mais do que o prémio o honrou a ele”.

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