Por Estante FNACEm 21/10/2024
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Em entrevista à FNAC, Pedro Freitas, mais conhecido como Poeta da Cidade, reflete sobre o seu percurso literário e o fenómeno moderno dos poetas das redes sociais, ao mesmo tempo que revela as suas origens musicais e o sonho de encher uma grande sala de espetáculos.
Por diferentes razões. O Poeta da Cidade nasceu em 2017, na altura só no YouTube, e era para ser um projeto anónimo de divulgação e mediação de leitura poética. Eu publicava vídeos em que aparecia de costas, sem mostrar a cara, a ler poesia de autores portugueses.
O nome surgiu porque eu tinha — e ainda tenho — um grande amor por Lisboa. Mas também porque pensei que, com o meu verdadeiro nome, na hipotética condição de eventualmente publicar um livro, nunca conseguiria ganhar mercado ao Pedro Chagas Freitas.
Hoje, provavelmente já não escolheria este nome, mas foi algo que me foi acompanhando e, depois de ter passado pelo [concurso televisivo] Got Talent, dando cara ao projeto, acabei por o agregar. Agora, é uma persona indissociável da minha própria pessoa.
Comecei a escrever poesia muito novo, por volta dos 10 ou 11 anos. Os primeiros poemas foram para a minha mãe, para a minha avó e para a minha namorada da altura. E isso coincidiu com uma altura em que a minha prima Mariana me deu a conhecer muita música, nomeadamente rap e hip hop. Tupac, Prodigy of Mobb Deep, Boss AC e… Sam the Kid.
Foi com ela que descobri o Sobre(tudo) e também foi ela que, mais tarde, me ofereceu o Pratica(mente), um álbum com o qual vivi quase diariamente nos quatro ou cinco anos seguintes.
Aconteceu tudo em simultâneo: começava a ter a perceção de poesia, ritmo e hip hop ao mesmo tempo que tentava começar a escrever. E emulava aquilo que ouvia ao ponto de esses primeiros escritos serem mais numa perspetiva de querer ser rapper.
Mais o segundo. Mas foi algo muito fugaz, porque percebi que não tinha jeito para a coisa. Então, decidi manter-me só na poesia.
Ainda assim, foi com o hip hop e, mais exatamente, com o Sam the Kid que tropecei na literatura e na poesia. Porque foi com o Pratica(mente) que descobri o "Cântico Negro" do José Régio — primeiro poema que decorei do início ao fim — ou o “Biografia” do Miguel Torga. Através das samples que o Sam the Kid usa no álbum.
Mas depois havia duas faixas que eram só com um velho a falar. E eu passava-as sempre à frente. Até que me apercebi que não era “só um velho a falar”; era o pai do Sam the Kid a dizer poesia — e aquilo pareceu-me um caminho. Pensei: OK, não sou um bom rapper, mas se calhar posso ser bom a dizer poesia.
Foi a partir desse momento que fui procurar mais poesia dita. E deparei-me com nomes como João Villaret e Mário Viegas e Ary dos Santos e com artistas internacionais de spoken word…
Quando eu fui ao Got Talent, em 2017, o poema que fui dizer na audição foi o “Máscaras d’Orfeu”, do pai do Sam the Kid, o Napoleão Mira. E correu muito bem, foi um grande sucesso — em particular dentro do mundo do hip hop, onde teve algum buzz.
Uma ou duas semanas depois, um repórter de um jornal de Cascais, de quem me fiz amigo, entrevistou o Sam the Kid e perguntou-lhe sobre isso. Ele disse que estava muito feliz e honrado, porque de repente o pai dele estava outra vez a receber propostas para espetáculos ao vivo. Nesse seguimento, acabei por o conhecer.
Valeu! [risos] Não sei se posso dizer que somos amigos, porque não estamos muitas vezes juntos, mas falamos facilmente, trocamos mensagens e temos grandes amigos em comum — o Sir Scratch e o André Neves, o MAZE dos Dealema.
Mas o próprio Napoleão Mira partilhou uma mensagem a dizer que era um orgulho sentir que as suas palavras encontravam repercussão numa camada tão jovem. Por isso, também nos encontrámos e vamos falando de vez em quando.
Percebi, então, que o que queria mesmo fazer era entrar no mundo do hip hop não enquanto rapper mas enquanto poeta e declamador. Estes últimos anos foram a tentar posicionar-me nesse meio e, este ano, consegui finalmente ter as minhas duas primeiras colaborações.
Uma com um rapper angolano, o Niikology, que se chama “Saber Perder”, e a segunda com um cantor de R&b, o MIRZA Lauchand, na música “Deixa-te Levar”.
O livro nasceu de uma relação amorosa de sete anos que eu tive — com a “ela” do título.
Durante a relação, eu tinha-lhe dito que um dia lhe escreveria um livro e, quando a relação chegou ao fim, em março de 2021, apercebi-me que tinha basicamente o livro completo.
Passei alguns meses a reestruturar e a finalizar tudo para que ficasse mais coeso. Depois, tive de decidir o que fazia com aquilo. Sentia que era um bom produto artístico. Tinha valor para mim, quanto mais não fosse sentimental, mas também sabia que era passível de ter valor para outras pessoas.
Não. E é engraçado, porque, quando estive no Got Talent, recebi algumas propostas de editoras para publicar um livro. Cheguei a ir a algumas reuniões. Mas, quando lhes dizia que o meu sonho era escrever poesia, diziam-me sempre a mesma coisa: a poesia não vende, as pessoas não leem poesia.
Não é uma questão de opinião: é estatístico. A poesia é, de facto, um dos géneros literários menos vendidos, a par com o teatro. Portanto, eu sabia que eles tinham a sua razão… mas não me queria juntar a uma editora que não acreditasse a 100% na minha capacidade ou que o meu livro pudesse ter sucesso.
Sim. Isso é algo que hoje em dia até se vê muito: editoras que vão contactar influenciadores para escreverem livros. O modo como operam é quase sempre idêntico. O resultado também: a capa com a cara do influenciador…
Queriam fazer esse tipo de livro para mim. Mas não era isso que eu queria.
Em 2021, já alguns anos depois do Got Talent, olhei para o meu projeto e resolvi que queria fazer alguma coisa daquilo. Ainda tentei contactar uma editora, mas não me deram resposta. Por isso, decidi: vou aprender a fazer um livro sozinho.
Não é.
E da credibilidade.
Ainda olham! E nem é só por ser uma edição de autor, mas por toda a forma como eu me apresento e como apresento a poesia que escrevo.
Eu não vejo mal nenhum em tentar que o meu livro seja o mais comprado possível.
Se gosto de escrever e demoro tanto tempo a escrever um livro, quero que o meu empenho tenha uma consequência financeira. Quero ser bem-sucedido. Quero que as pessoas o leiam.
A menos que seja um génio — e eu não sou, estou bem ciente das minhas limitações literárias —, acho que sim.
A quantidade de livros que são publicados por dia torna quase obsoleto o trabalho das editoras. Elas não têm mãos a medir, portanto a atenção que é dedicada ao nosso livro não é a que era há uns anos, nem a que se calhar esperamos.
Sim, e eu acho que essa postura é que me diferencia, principalmente dos novos poetas.
Sim, porque acreditam que a poesia tem de vender por si — e eu não acho que estejam errados, mas acho que um pintor só é pintor quando alguém põe os olhos no quadro que pintou. Até esse momento, só é pintor para si próprio. O mesmo acontece com um poeta.
São duas forças. De um lado, os escritores que não têm problema em publicitarem-se, que, normalmente, coincidem com uma camada demográfica mais jovem, mais acostumada à Internet; do outro, os escritores que não vivem sem os prémios.
Eu sinto que um dos grandes males em Portugal é escrever-se muito para prémios. E porque é que isso acontece? Porque existe o preconceito de que algo que venda e seja comercial é mau. Se é mau, um escritor não consegue vender livros suficientes para se sustentar; logo, precisa de procurar esse sustento nos prémios literários.
Não tem mal nenhum, mas são duas faces da mesma moeda, pelo que me parece um pouco hipócrita que pessoas que vão atrás de todos os prémios possíveis olhem de lado para quem prefere fazer outro caminho e não quer ficar à espera da validação de terceiros.
Não é oficial, porque, não estando nas grandes distribuidoras, os livros não são passíveis de serem auditados. No entanto, as tiragens médias dos livros de poesia rondam os 400-500 exemplares — e eu, em dois anos e meio, vendi 4500 exemplares físicos e mais uns 500 e-books.
Em especial porque o meu livro não estava em todas as grandes livrarias e superfícies comerciais. Tinha apenas um ponto de venda.
O Vim Sem Tempo nasce a partir do último poema do Ela. Porque percebi que o texto emocional específico que eu havia escrito para uma situação específica, quando era lido por outras pessoas ganhava um contexto diferente. Eu nunca tinha tido essa experiência. Nunca tinha tido poemas que as pessoas pudessem viver, gostar e julgar durante tanto tempo.
Lembro-me, por exemplo, que um dos meus melhores amigos me telefonou um dia a chorar desalmadamente porque dizia que o meu poema “Deixar ir” o lembrava da sua cadela que tinha morrido há pouco tempo. Achei aquilo quase bizarro, porque obviamente não tinha sido escrito nesse contexto.
Mas isto foi acontecendo várias vezes. Até que me começou a acontecer também a mim.
Sim. A minha avó morreu em fevereiro de 2023 e eu voltei a reler o Ela. O último poema do livro, “No final”, havia sido escrito de forma a encerrar a jornada da relação amorosa que eu tinha vivido, mas ganhava agora um outro contexto e passava de um ponto final para uma quase homenagem ou um novo início. Perdia o teor amoroso para passar ao teor de luto.
Vejo. Mas de outra forma.
Com a morte da minha avó, decidi que estava na hora de dar um novo passo. Não tinha pressa nenhuma de escrever um novo livro, mas sentia a necessidade de escrever algo que encapsulasse o que estava a sentir com aquela perda.
O Vim Sem Tempo é, no fundo, a realização de que o conceito de tempo tem diferentes significados semânticos, consoante aquilo a que o juntamos: o tempo religioso, ligado à omnipotência e à plenitude; o tempo socialmente construído, que rege as nossas relações uns com os outros; e o tempo mais abstrato, que gere a natureza e nos dá o dia e a noite.
Nos três. No tempo religioso é a perspetiva de um almejar pela reencarnação ou por um estado final de paz; no tempo socialmente construído é a compreensão de que terei de reaprender a encarar os dias e as horas sem a presença de uma pessoa que me foi tão essencial; e no tempo dos dias é porque o mundo deixa de ser visto da mesma forma quando perdemos alguém.
Sim. Porque o mundo mudou. Por um lado, estou feliz por ainda me sobrar bastante tempo para viver, mas, por outro, é tempo que será vivido sem aquela pessoa.
Não sei o futuro. Sei o que gostava que fosse, mas não sei ao certo como será lidar com ele.
Sim. Não tenho nada a apontar. Deram-me total controlo sobre a forma como o produto físico chega às pessoas, por isso, se houver alguma crítica, eu assumo.
Estabeleci, é claro, algumas condições. Por exemplo, não estou à procura de escrever um ou dois livros por ano. Quero trabalhar cada livro ao longo do tempo que sentir que o livro precisa de ser trabalhado — que é, pelo menos, um ano.
E depois há uma questão que me tem estado a deixar ansioso: as vendas. Porque, com o meu primeiro livro, eu sabia a repercussão imediata do que fazia nas redes sociais. Fazia um vídeo para o TikTok ou para o Instagram e, no momento, sabia que tinha resultado em 40 vendas.
Eu escolhi anual. Mas sim, deixei de ter essa noção ao dia, o que me deixa ansioso. Não sei quantos livros estão a ser vendidos, quantas pessoas o estão a ler.
Só em 2025 é que vou conseguir avaliar o sucesso do livro. E essa é a questão que me deixa acordado à noite: não saber se a forma como estou a comunicar o livro está realmente a chegar às pessoas.
Tem sido essa a minha experiência. E o meu objetivo também é servir como porta de entrada. Aliás, essa é uma das coisas que me deixa mais feliz: pessoas que tropeçam na poesia através de mim e que, a partir daí, decidem descobrir mais.
Não quero colocar-me nesse papel, pode parecer pouco humilde [risos], mas, de facto, em 2017 não havia muita gente a dizer poesia nas redes sociais em Portugal. Eu não era o único, mas não havia muitos a fazê-lo — pelo menos de forma bem-sucedida.
De repente, vemos pessoas que eu consigo perceber que se inspiraram em mim. E isso enche-me de orgulho, até porque significa que se está a despertar o gosto pela leitura.
Nunca tinha pensado nisso…
Se o faço, faço-o de forma subconsciente. Mas, de facto, todos os poemas que escrevo são passíveis de ser ditos, porque me considero melhor diseur de poesia do que poeta.
Exatamente. O meu grande sonho com a poesia é conseguir torná-la financeiramente sustentável e servir como uma porta de entrada para que as pessoas possam descobrir outros poetas.
Até podem começar pelos que me motivam e inspiram. A poesia não é mais do que um jogo de inspirações de segundos e terceiros.
Descobri nos últimos anos dois poetas de que gosto muito.
Um deles infelizmente já morreu, o Daniel Faria. Morreu com 28 anos, mas aquilo que escreveu é de uma genialidade tão grande para a idade que é um desperdício não ser mais relevante no ensino junto dos mais jovens.
Depois, também sou um grande fã da Maria do Rosário Pedreira. Considero-a a minha poeta portuguesa contemporânea favorita — apesar de saber que ela não é uma grande apreciadora do mundo digital.
Sim, mas eu sei que ela não é muito fã disto dos booktokers e de como a literatura agora entra de forma tão leviana na vida de algumas pessoas.
Não tive a oportunidade de a conhecer para saber se ela também acha isso do meu trabalho, mas, independentemente da resposta, ela é simplesmente fenomenal.
Não faltam poetas, mas talvez lhes falte a ambição de serem mais lidos. Porque ser mais lido é algo que não cai do céu. Tem de partir deles próprios. Não podem ficar à espera que venha do público e das editoras.
Mas, por exemplo, tenho uma amiga que escreve brilhantemente, a Maria Brás Ferreira. E também gosto muito da Inês Francisco Jacob, do Pedro Eiras…
Tenho mixed feelings quanto à Rupi Kaur…
Por um lado, é alguém que fez há dois anos aquilo que eu espero um dia fazer: uma digressão mundial de poesia dita. Foste vê-la quando passou por Portugal?
Eu fui vê-la à Aula Magna. Queria perceber o que fazia uma bestseller do New York Times numa world tour. E ela é uma excelente entertainer… mas achei um espetáculo pobre no sentido cénico. Era só ela no palco, com algumas luzes. Ela interage muito bem com o público, nesse aspeto é sublime, mas senti que havia espaço para outros voos.
Também não sei se o tal novo rótulo dos instapoets que ela, para todos os efeitos, ajudou a criar não fará mais mal do que bem…
É uma crítica que também me fazem a mim. Mas ninguém entra no erro de dizer que a J. K. Rowling é uma péssima escritora quando comparada com o Dostoiévski.
Exato, são diferentes. Cada um na sua.
Só que, no meu caso, comparam-me sempre aos grandes: Herberto Helder, Vítor Nogueira, Fernando Pessoa… Essa não é uma comparação justa, quanto mais não seja pela pouca vida que ainda vivi. Uma coisa era se fosse genial, como o Daniel Faria, mas, estando eu ciente de que não sou, não acho justo porque não me pretendo colocar nesse ponto.
Agora, também não me pretendo colocar como alguém completamente desprovido da tendência poética portuguesa. Não quero tender para um lugar de catalogação enquanto poeta das redes sociais — que é o que, de facto, me tem acontecido.
Eu simplesmente quero vender. Tenho uma ânsia pela venda. Quero que as pessoas me leiam. As críticas chegam-me mais por isso do que por publicar diariamente excertos altamente republicáveis e partilháveis, como fazem a Rupi Kaur ou a Amanda Lovelace.
Não sou ninguém para dizer que o que elas fazem não é poesia. Acho que é outro tipo de poesia. Da mesma forma que o que eu faço não é uma poesia idêntica à do Herberto Helder ou do Daniel Faria ou do Daniel Jonas.
Eu escrevo para ser lido. E escrevo na perspetiva de o poder encadear com outras dimensões artísticas.
Tenho uma ganância pelo audiovisual. Aliás, a minha presença nas redes sociais não é só para comunicar os livros ou a poesia; é também um teste para ir melhorando o meu know-how com câmaras, enquadramentos e todos os aspetos cinematográficos.
O que escrevo não se encerra num poema só. Por isso, não consigo dizer que tenho um rótulo. Porque, para mim, o que escrevo não é o produto final. É uma espécie de guião.
Tenho dois espetáculos de poesia montados. Um deles é sobre o Ela. É um espetáculo de poesia com uma cama sonora live de ambiências, pianos e cordas, com o músico Wake Up Sleep. Algo que tenta potenciar a tal ideia de etéreo. Amor eterno.
O outro é um espetáculo de jazz e poesia chamado POEZZ, que nasceu de uma antologia que agrega poemas de autores lusófonos sobre jazz. Montei-o com o Kenny Caetano, um saxofonista brilhante da nova escola.
Um dos grandes projetos que gostava de fazer, quiçá já para o próximo ano, é um álbum de spoken word.
Gostava de partir daí para voltar ao lugar onde estávamos quando a poesia tinha peso na comunicação social, nomeadamente na RTP. Voltar ao caminho que Mário Viegas e João Villaret trilharam e continuá-lo na perspetiva de esgotar novamente um São Luiz com um espetáculo de poesia, que é algo que não acontece, acho eu, desde 1976.
Um dos meus maiores sonhos é conseguir encher uma grande sala do país.
Entrevista: Tiago Matos
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