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Revista ESTANTE

Roxane Gay: “Não tenho de justificar o meu corpo a ninguém”

Estante FNAC
Por Estante FNAC
Em 21/03/2025
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Em entrevista à FNAC, Roxane Gay, uma das mais aclamadas escritoras dos Estados Unidos, apresenta-nos o livro que mais lhe custou a escrever, uma biografia do seu próprio corpo que funciona, em simultâneo, como um testemunho de discriminação e preconceito.

 

 

No teu livro Fome, escreves sobre como o teu corpo foi moldado pelo trauma resultante de um episódio de violência sexual. O teu intuito foi desafiar a ideia de que a obesidade resulta exclusivamente de excessos alimentares?

 

Fome-Roxane-Gay

 

Quando escrevi o Fome, quis contar a história do meu corpo e de corpos como o meu. E sim, em parte quis demonstrar que não existe uma razão única que leva alguém a ser gordo.

Dito isto, não necessitamos de uma “boa” razão para sermos gordos. Na verdade, não temos de explicar porque é que os nossos corpos são como são.

É muito importante resistirmos à ideia de que há boas e más razões para se ser gordo, porque essa é apenas mais uma forma de gordofobia.

 

 

Dirias, portanto, que o Fome é menos sobre aceitação corporal e mais sobre o cultivo de empatia?

 

O Fome não é necessariamente sobre aceitação corporal nem sobre o cultivo de empatia… embora eu acredite que esses são dois dos aspetos que o livro acaba por promover.

 

 

No livro, referes como o teu corpo te torna excessivamente visível e, ao mesmo tempo, invisível. Como navegas esse paradoxo de ser, em simultâneo, vigiada e ignorada?

 

É complicado. E também é bastante frustrante. As pessoas ficam a olhar para ti, julgam-te, e a seguir esbarram contra ti como se não estivesses lá.

Eu procuro sempre lembrar-me de que tenho todo o direito de estar em qualquer espaço onde me encontre. Tenho o direito de ser tratada com respeito e dignidade. Não tenho de me explicar nem de justificar o corpo que tenho a ninguém.

 

 

Mencionaste, no passado, que o Fome foi de longe o livro mais difícil que já escreveste. No entanto, é um livro que também parece causar desconforto em alguns leitores. Porque achas que isso acontece?

 

As pessoas tendem a ter uma relação complicada com os próprios corpos. A maioria sente-se muito desconfortável a falar sobre obesidade, pois, para o fazer, precisa de confrontar os seus próprios preconceitos em relação às pessoas gordas. Precisa de reconhecer que as pessoas gordas são, de facto, pessoas que merecem ser tratadas com respeito e dignidade.

Muitas pessoas formam ideias bastante inflexíveis em relação a como um corpo deve ser. Apenas conseguem entender um corpo gordo como um corpo doente. Um problema por resolver.

Mesmo quando dizem que compreendem e sentem empatia, estão a julgar. E, para a maioria, é difícil serem forçadas a confrontar esse julgamento. A encarar a sua própria gordofobia.

 

 

O resultado disso é que as pessoas se sentem muitas vezes no direito de tecer comentários e policiar os corpos dos outros. Não será este impulso comparável ao modo como a sociedade interfere em questões como a orientação sexual, os direitos reprodutivos e outras liberdades individuais? O que o motiva?

 

Uma boa parte disso tem raízes na misoginia — porque, na maioria das vezes, é do modo como os corpos das mulheres são policiados que falamos, seja por serem demasiado gordos, demasiado magros, demasiado curvilíneos ou demasiado planos.

Somos julgadas pela forma como fazemos sexo e por com quem o fazemos. Somos julgadas por quando e com quem casamos. Somos julgadas pelas decisões que tomamos em relação a ter ou não ter filhos.

É claro que os homens também enfrentam alguns destes julgamentos, mas o grande peso da vigilância social recai maioritariamente sobre as mulheres. Fizemos progressos com o feminismo, mas ainda há tanto por fazer.

O desejo de policiar os corpos nasce da vontade de exercer poder. As pessoas anseiam por alguém sobre quem possam exercer controlo e, quando se vive num corpo que desafia as convenções, é-se um alvo perfeito para quem tem esse desejo de poder.

 

 

Por outro lado, à medida que o movimento da positividade corporal se alarga, as grandes marcas parecem estar a apropriar-se da sua linguagem ao mesmo tempo que mantêm a promoção da magreza como um ideal.

 

As empresas vão sempre apropriar-se de tudo o que acharem que lhes pode gerar lucro. É o que é. Mas isso não diminui a importância ou o impacto da aceitação corporal.

Apenas nos teremos de esforçar ainda mais para transmitir o que é a aceitação corporal, porque é importante e o que a torna algo que não se pode comprar ou vender.

 

 

Ainda assim, hoje em dia, uma boa parte do discurso sobre imagem corporal parece focar-se no amor-próprio e no empoderamento individual. Não achas que este foco na aceitação pessoal pode estar a desviar as atenções das mudanças estruturais necessárias?

 

Não acho que focar-nos no empoderamento individual e nessas coisas seja uma distração. Concordo, no entanto, que muitas vezes a conversa sobre imagem corporal termina aí — quando, evidentemente, é um tema muito mais abrangente.

Precisamos de nos focar no indivíduo, mas também no que podemos fazer para adereçar o sistema e as questões estruturais que afetam os corpos na esfera pública.

 

 

Para ti, o que seria uma mudança radical de paradigma na forma como a sociedade trata os corpos maiores?

 

Se os profissionais de saúde adotassem os princípios defendidos pela Health at Every Size

Isto significaria que mais marcas de roupa disponibilizariam tamanhos grandes. Significaria que os espaços públicos se tornariam mais acessíveis a uma maior diversidade de corpos. E as pessoas aprenderiam a aceitar que os corpos existem em várias formas diferentes e que precisam de fazer um esforço para os aceitar sem os julgar.

 

 

Parece existir uma certa expectativa de que um livro de memórias sobre sofrimento deve terminar de forma triunfante. Já te sentiste pressionada a moldar a tua história de modo a tornar-se mais “digerível” para os leitores?

 

Sinto, de facto, essa pressão para oferecer aos leitores um final feliz. Mas estou mais empenhada em contar a minha história nos meus próprios termos e da maneira mais honesta que me é possível.

A verdade é que, por vezes, não há um final feliz. Há apenas um final. E eu tenho o direito de contar a minha história como quero. É assim que resisto à pressão.

 

 

Podes recomendar-nos outros livros que, como o Fome, explorem as intersecções entre corpo, trauma e expectativas sociais?

 

Chronology-of-water-Lidia-Yuknavich

 

Sou uma grande fã dos livros The Chronology of Water, de Lidia Yuknavitch, Autobiography of a Face, de Lucy Grealy, Heart Berries, de Terese Mailhot, e Heavy, de Kiese Laymon. São alguns dos que recomendo.

 

 

Por fim, queres deixar uma mensagem aos teus leitores em Portugal?

 

Espero que gostem de ler o Fome e que o livro vos ajude a refletir sobre a forma como veem o vosso corpo e o corpo dos outros.

A propósito, estive recentemente em Portugal, e mais especificamente em Lisboa, com a minha família, e achei a cidade lindíssima. Mal posso esperar para voltar.

 

  

Entrevista: Tiago Matos

 

 

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