Por Estante FNACEm 12/11/2025
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Em entrevista à FNAC, Roxane Gay, uma das mais aclamadas escritoras dos Estados Unidos, apresenta-nos o livro que mais lhe custou a escrever, uma biografia do seu próprio corpo que funciona, em simultâneo, como um testemunho de discriminação e preconceito.
Quando escrevi o Fome, quis contar a história do meu corpo e de corpos como o meu. E sim, em parte quis demonstrar que não existe uma razão única que leva alguém a ser gordo.
Dito isto, não necessitamos de uma “boa” razão para sermos gordos. Na verdade, não temos de explicar porque é que os nossos corpos são como são.
É muito importante resistirmos à ideia de que há boas e más razões para se ser gordo, porque essa é apenas mais uma forma de gordofobia.
O Fome não é necessariamente sobre aceitação corporal nem sobre o cultivo de empatia… embora eu acredite que esses são dois dos aspetos que o livro acaba por promover.
É complicado. E também é bastante frustrante. As pessoas ficam a olhar para ti, julgam-te, e a seguir esbarram contra ti como se não estivesses lá.
Eu procuro sempre lembrar-me de que tenho todo o direito de estar em qualquer espaço onde me encontre. Tenho o direito de ser tratada com respeito e dignidade. Não tenho de me explicar nem de justificar o corpo que tenho a ninguém.
As pessoas tendem a ter uma relação complicada com os próprios corpos. A maioria sente-se muito desconfortável a falar sobre obesidade, pois, para o fazer, precisa de confrontar os seus próprios preconceitos em relação às pessoas gordas. Precisa de reconhecer que as pessoas gordas são, de facto, pessoas que merecem ser tratadas com respeito e dignidade.
Muitas pessoas formam ideias bastante inflexíveis em relação a como um corpo deve ser. Apenas conseguem entender um corpo gordo como um corpo doente. Um problema por resolver.
Mesmo quando dizem que compreendem e sentem empatia, estão a julgar. E, para a maioria, é difícil serem forçadas a confrontar esse julgamento. A encarar a sua própria gordofobia.
Uma boa parte disso tem raízes na misoginia — porque, na maioria das vezes, é do modo como os corpos das mulheres são policiados que falamos, seja por serem demasiado gordos, demasiado magros, demasiado curvilíneos ou demasiado planos.
Somos julgadas pela forma como fazemos sexo e por com quem o fazemos. Somos julgadas por quando e com quem casamos. Somos julgadas pelas decisões que tomamos em relação a ter ou não ter filhos.
É claro que os homens também enfrentam alguns destes julgamentos, mas o grande peso da vigilância social recai maioritariamente sobre as mulheres. Fizemos progressos com o feminismo, mas ainda há tanto por fazer.
O desejo de policiar os corpos nasce da vontade de exercer poder. As pessoas anseiam por alguém sobre quem possam exercer controlo e, quando se vive num corpo que desafia as convenções, é-se um alvo perfeito para quem tem esse desejo de poder.
As empresas vão sempre apropriar-se de tudo o que acharem que lhes pode gerar lucro. É o que é. Mas isso não diminui a importância ou o impacto da aceitação corporal.
Apenas nos teremos de esforçar ainda mais para transmitir o que é a aceitação corporal, porque é importante e o que a torna algo que não se pode comprar ou vender.
Não acho que focar-nos no empoderamento individual e nessas coisas seja uma distração. Concordo, no entanto, que muitas vezes a conversa sobre imagem corporal termina aí — quando, evidentemente, é um tema muito mais abrangente.
Precisamos de nos focar no indivíduo, mas também no que podemos fazer para adereçar o sistema e as questões estruturais que afetam os corpos na esfera pública.
Se os profissionais de saúde adotassem os princípios defendidos pela Health at Every Size.
Isto significaria que mais marcas de roupa disponibilizariam tamanhos grandes. Significaria que os espaços públicos se tornariam mais acessíveis a uma maior diversidade de corpos. E as pessoas aprenderiam a aceitar que os corpos existem em várias formas diferentes e que precisam de fazer um esforço para os aceitar sem os julgar.
Sinto, de facto, essa pressão para oferecer aos leitores um final feliz. Mas estou mais empenhada em contar a minha história nos meus próprios termos e da maneira mais honesta que me é possível.
A verdade é que, por vezes, não há um final feliz. Há apenas um final. E eu tenho o direito de contar a minha história como quero. É assim que resisto à pressão.
Sou uma grande fã dos livros The Chronology of Water, de Lidia Yuknavitch, Autobiography of a Face, de Lucy Grealy, Heart Berries, de Terese Mailhot, e Heavy, de Kiese Laymon. São alguns dos que recomendo.
Espero que gostem de ler o Fome e que o livro vos ajude a refletir sobre a forma como veem o vosso corpo e o corpo dos outros.
A propósito, estive recentemente em Portugal, e mais especificamente em Lisboa, com a minha família, e achei a cidade lindíssima. Mal posso esperar para voltar.
Entrevista: Tiago Matos
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