Revista ESTANTE A metamorfose da fotografia e da escrita
Por Estante FNACEm 07/07/2023
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As tendências nas redes sociais são, por norma, caricatas e criativas. Uma das mais recentes destaca uma aparente obsessão dos homens por um dos maiores impérios da História.
“Quantas vezes pensas no Império Romano?” Esta é a nova tendência do TikTok e a pergunta que tem sido colocada a inúmeros homens nesta popular plataforma. Apesar do seu cariz inusitado, a verdade é que as respostas comprovam a aparente popularidade do tema junto deste público. Milhares de homens, pais e avôs assumem pensar semanalmente nas conquistas do Império Romano. Curioso, não é?
No entanto, ainda antes do burburinho social, a literatura sempre foi fortemente inspirada: não só pelo Império Romano, como também por outras civilizações e personagens históricas que marcaram a humanidade. Sabias que os romances históricos em particular são, inclusive, um dos géneros literários mais populares nos dias de hoje? Eis alguns desses exemplos que prometem fazer-te pensar sobre a nossa evolução e todas as suas figuras marcantes.
Começamos a lista com um vencedor do Nobel da Literatura em 2017, o japonês Kazuo Ishiguro. Das várias obras que justificaram o tão merecido prémio destacam-se várias, como, por exemplo, O Gigante Enterrado, Klara e o Sol, Nunca Me Deixes e As Pálidas Colinas de Nagasáqui. Entre os vários géneros literários em que o autor navega, um romance histórico destaca-se. Os Despojos do Dia segue a estória de um mordomo chamado Stevens (personagem interpretada por Anthony Hopkins na adaptação cinematográfica de 1993), que se apresenta também como narrador.
No verão de 1956, decide embarcar numa viagem para visitar uma antiga colega, mas aquilo que seria apenas um simples passeio transforma-se num momento de introspeção, que lhe permite refletir sobre os seus largos anos de serviço na famosa herdade de Darlington Hall. O romance mergulha profundamente na mente do protagonista e revela como os acontecimentos da época, entre eles duas Guerras Mundiais e o fascismo, moldaram a sua personalidade e o ambiente dos senhorios de Darlington Hall.
Seria impensável listarmos romances históricos e não referirmos uma das autoras portuguesas mais conhecidas nesta matéria. Isabel Stilwell já conta com várias obras publicadas, a maioria delas biografias sobre figuras relevantes da história portuguesa, como Inês de Castro, D. Teresa e D. Maria I - Uma Rainha Atormentada por um Segredo que a Levou à Loucura.
Apesar de alguns detalhes serem ficcionais, a pesquisa intensiva que a autora faz assegura a autenticidade da obra, tornando-a cativante. O seu livro mais recente foca-se em Filipe I e o seu reinado em Portugal, quando este ocupou o trono nacional e instaurou a União Ibérica. A autora destaca as complexas relações políticas entre ambos os países e o impacto deste período na identidade e cultura.
Nomeada quatro vezes para o Booker Prize – com duas conquistas do galardão, o primeiro feito de uma mulher –, esta escritora e historiadora britânica é uma das maiores referências neste género literário, em grande medida graças à trilogia Wolf Hall (destacamos o primeiro, mas seguem-se O Livro Negro: Thomas Cromwell – Livro 2 e O Espelho e a Luz: Thomas Cromwell – Livro 3). Adaptada a minissérie em 2015, a trama encontra na personagem Thomas Cromwell, membro da corte de Henrique VIII, o tema principal para uma teia de quezílias, intrigas e deslealdades. A par deste período histórico, Hilary Mantel dedicou-se ainda a uma coletânea de contos em O Assassinato de Margaret Thatcher, uma obra que lhe valeu uma investigação por ser alvo de suspeita.
E se quiseres saber mais curiosidades acerca da sua personalidade e percurso literário, nomeadamente a sua passagem pelo Botsuana, percorre esta detalhada pesquisa.
Eis um dos nomes que consta de qualquer lista de autores moçambicanos a destacar. Atualmente, conhecemos melhor a cultura e a história de Moçambique, em grande medida, graças às obras de Mia Couto. Livros como Terra Sonâmbula e O Último Voo do Flamingo ilustram a brutalidade da guerra colonial, assim como o período de instabilidade após a independência. Em 2015, o escritor publicou o primeiro livro que iniciaria a trilogia As Areias do Imperador.
O romance As Mulheres de Cinza aborda um período com bastante relevância para Moçambique e para Portugal. Em finais do século XIX, a região sul de Moçambique era governada pelo imperador Gugunhana, responsável pelo chamado Império de Gaza, considerado um dos maiores no continente. Portugal declarava guerra e marcava, assim, uma época sangrenta para a história dos dois países, com consequências devastadoras – que vão sendo ilustradas, ao longo das páginas, pelos protagonistas deste romance: o sargento português Germano de Melo e Imani, pertencente à tribo VaChopi.
Sublinhamos que a História mundial está repleta de outros Impérios significativos para a mudança de paradigmas, cada um deles com uma riqueza cultural vasta que merece também ser alvo da tua reflexão.
Dado que a tendência de TikTok se refere especificamente ao Império Romano, não podíamos deixar de incluir nesta lista um livro que retrate essa época. De todas as figuras que viveram nesse período da História, Júlio César é, sem sombra de dúvidas, uma das mais emblemáticas. Apesar de ter tido uma vida repleta de mistérios e de vitórias militares surpreendentes, o senador romano ficou também eternizado em livros como Astérix – O Papiro de César e Júlio César, peça de William Shakespeare.
Se quisermos conhecer toda a sua incrível jornada, a coleção de livros do autor britânico Conn Iggulden, que também escreveu A Guerra das Rosas - Livro 1: Pássaro da Tempestade, retrata precisamente isso. No primeiro volume, ficas a conhecer a infância e a juventude do líder romano. Ao longo das páginas, vais absorvendo o caráter de Júlio César e as suas complexas relações com outras poderosas personalidades.
Uma coisa é certa: ao leres este livro, os temas e as tuas curiosidades acerca do Império Romano vão continuar – ou começar – a viver intensamente na tua mente.
Por último deixamos-te outro exemplar que relembra o facto de o Império Romano não ter tido sempre esta denominação. Em tempos, foi uma república, um exemplo de uma estrutura política que serviu de inspiração, juntamente com a Grécia antiga, à democracia como a conhecemos. Para adentrares neste período, recomendamos-te a leitura da saga Os Senhores de Roma para servir de ponto de partida.
Da mesma autora de A Independência de uma Mulher e de As Senhoras de Missalonghi, chega o primeiro volume desta trama, que inicia a narrativa histórica e que se foca em duas figuras centrais marcantes para o início do fim da república: Gaio Mário e Sula. A extensa pesquisa por parte desta romancista australiana permite descrever, detalhadamente, a sociedade romana, os seus costumes e os seus problemas estruturais – sendo que, estes últimos, estiveram na base de uma guerra civil que abalou as fundações da república e marcou o começo de uma transição sangrenta para um regime imperialista.
Estas questões levantam-se: onde estaríamos nós se este Império tivesse permanecido uma república? Será que, à data de hoje, falaríamos em latim? Será que podemos analisar a História, de forma a não repetirmos os erros do passado? A democracia é frágil – e se há momento memorável que te relembra precisamente disso é o início do Império Romano.