Revista ESTANTE Nuno Nepomuceno: “Se sentir que há interesse, estou disposto a continuar nos romances históricos”
Por Estante FNACEm 26/01/2026
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Em entrevista à FNAC, Bruno M. Franco "abre o jogo" em relação ao seu novo livro, Jogo Mortal, um thriller alucinante que promete agradar a fãs de Squid Game, Battle Royale e Os Jogos da Fome.
Já a tinha há alguns anos, porque sou fã de Os Jogos da Fome e sempre quis desenvolver uma mistura de policial realista com Os Jogos da Fome, mas num universo próprio.
Decidi criar a Helena, uma estudante "normal", com objetivos de vida, que, devido a problemas financeiros da família, fica a saber que os seus sonhos futuros estão em causa. Tenho a certeza de que muita gente se vai identificar com isso.
Quis ter uma personagem com quem os leitores se identificassem para, depois, os pôr a pensar. Porque ela vai passar por vários desafios mortais em que encontrará problemas éticos sobre o valor da vida humana. Queria que as pessoas lessem e se perguntassem: se fosse eu, o que faria? Seria capaz de matar esta pessoa?
Sim, é verdade.
Acrescentei a referência a Squid Game já durante a fase de revisão. O meu livro começava de forma muito semelhante à série, porque, originalmente, em vez de haver a entrega de uma ficha de póquer, era um cartão-de-visita. Quando vi que Squid Game também começava assim, achei melhor fazer algumas alterações, senão as pessoas iam pensar que eu tinha copiado.
Acredito que as pessoas que gostaram de Squid Game e de Os Jogos da Fome vão gostar muito do meu livro, porque é verdade que há semelhanças.
No entanto, a minha principal inspiração até foi mesmo o Battle Royale, que li há uns dois anos. É claro que o meu livro também não é igual a esse, mas tentei transmitir a mesma energia.
O que eu mais gosto nestas histórias é a luta pelo valor da vida humana. São várias pessoas em jogo que, para sobreviver e vencer, têm de matar outras. O ser humano muitas vezes transcende-se quando percebe que a sua vida está em risco. Mas a minha vida valerá mais do que a tua? Adoro esse tema.
Sim. Há dois ou três anos, com o boom das apostas desportivas online, tive curiosidade e decidi apostar umas quantas vezes, embora com valores muito baixos. Percebi em primeira mão os efeitos que aquilo pode ter. Quando ganhamos, a sensação é tão boa que queremos apostar mais; quando perdemos, sentimos que temos de apostar ainda mais para recuperar o que perdemos.
Eu senti isso na pele. Fui investigar sobre o vício do jogo e fiquei chocado com o que encontrei. Quis passar essa informação para o livro, para alertar os leitores de que há pessoas que ficam com as vidas arruinadas por dívidas, que começam a roubar às próprias famílias, é uma desgraça enorme. A personagem do Rui, viciado no jogo, foi criada por isso.
Quis que os leitores percebessem que apostar pode ser divertido, mas que tem de ser feito com muita cautela.
[Risos] Pois, não podemos falar muito disso para não estragar a surpresa, mas foi uma ideia da editora e eu adorei. É algo inovador que eu nunca vi em Portugal nem no estrangeiro. Se calhar até existe, mas eu não conheço. Acho que os leitores vão ficar surpreendidos e que qualquer pessoa vai adorar o desafio extra.
Tanto se calhar não. Escrevi o Segredo Mortal em 2014 e sempre acreditei muito nele e nas suas possibilidades de sucesso. Tanto que nem sequer escrevi mais nenhum enquanto não arranjei uma editora "como deve ser" para o publicar.
Quando o livro foi publicado [em 2021], dei tudo por ele e pela sua divulgação. E as pessoas ficaram muito entusiasmadas, embora nem soubessem quem eu era. Percebi nessa altura que era capaz de correr bem, mas nunca pensei que corresse tão bem.
O livro foi bastante falado e, um ano e meio depois, continua a ser referido nas redes sociais. Não estava à espera de tanto, mas fico muito feliz. É algo que aumenta a minha responsabilidade para os próximos.
É verdade. A série já tem dois livros, haverá pelo menos quatro de seguida e eu creio que é capaz de chegar aos seis ou sete, embora dependa um pouco da aceitação do público.
Tenho receio em fazer uma série muito prolongada. Por exemplo, gosto muito da série de livros do Gabriel Allon, escrita por Daniel Silva, mas neste momento já vai no 21.º ou 22.º livro e já não sinto "aquela" vontade de os ler como sentia no início.
Sim, acho que resulta muito bem. Pelo que tenho lido e ouvido, as pessoas gostam muito da química entre eles – e também do contraste, porque o Leonardo é mais cerebral, não se dá tanto às pessoas, e a Marta tem o coração na boca e faz o que quer.
A relação é muito engraçada. E depois há uma tensão entre eles – que, dependendo do contexto, pode ou não ser sexual. As pessoas acham que eles gostam um do outro, mas que "está difícil de chegar lá". Gosto de jogar com isso.
Quando a minha mãe faleceu, eu tinha 14 anos e foi um golpe muito duro. Na altura, fazia natação de competição, o que me ajudava a descarregar a frustração e a tristeza, mas senti que precisava de mais, de descarregar também ao nível emocional, e apeteceu-me escrever.
Nunca tinha pensado em escrever, mas ajudou-me muito a fugir àquelas sensações, porque naquele momento eu não queria ser o Bruno. Queria ser outras personagens. Por exemplo, um inspetor que investiga crimes e é um herói.
Agora é diferente. Passaram muitos anos. Não digo que agora seja uma profissão, mas é uma paixão que mantenho e adoro. Sinto-me feliz a escrever. E, agora que estou a publicar o que escrevo, gosto de pensar como os leitores vão reagir. Agarro-me muito à ideia de trazer bons momentos e boas leituras às pessoas.
Sou radioterapeuta no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa. Trabalho à tarde e escrevo quando é possível. Costumo dizer que sou escritor em part-time.
Quando era solteiro, era mais fácil. Entretanto casei – e também temos um cão, que exige muita atenção –, por isso geralmente escrevo à noite. Depois de jantar, a minha mulher adormece cedo e eu aproveito e vou escrever para o computador.
No entanto, o futuro é uma incógnita, porque vou ser pai daqui a umas cinco semanas e sei que a minha rotina vai mudar. Mas continuarei a tentar aproveitar o tempo livre para escrever. Pelo menos uma horinha por dia.
Costumo ler mais nos transportes. Por vezes nos intervalos do trabalho.
Posso recomendar dois. O primeiro chama-se Isto Vai Doer e é um livro escrito por um médico de obstetrícia. Achei muito engraçado. E também desmistifica um pouco a sua área.
O segundo faz parte de uma série policial da dupla sueca Hjorth e Rosenfeldt, que é uma série espetacular. Identifico-me muito com ela porque, além de ter casos muito bons, explora a vida das personagens principais. É algo que também tentei fazer neste meu segundo livro.
A série começa com o livro Segredos Obscuros. Recomendo a todos.
[Risos] É verdade, nos últimos anos tenho escrito sempre um conto de Natal. Não sei bem porquê.
Gosto muito do Natal. Sempre gostei. Antigamente, com a minha mãe, era mais especial, porque ela adorava decorar a nossa casa inteira. Quando ela faleceu, tivemos dois ou três anos em que nem sequer tínhamos árvore de Natal.
Eu associo muito o Natal à minha mãe, a um tempo em que tudo era bom e não tínhamos preocupações. Tento, em cada conto, passar alguma mensagem de solidariedade e amor, porque gosto tanto da época que quero embelezar a de outras pessoas.
Enquanto puder, hei de escrever contos de Natal.
Nunca pensei em publicar. Mas, se algum dia surgir a oportunidade, estou aberto à ideia.
O terceiro livro já está escrito. Assim que soube que a minha mulher estava grávida, achei melhor adiantar trabalho. Já está com a editora e será publicado nos primeiros sete ou oito meses do próximo ano.
Agora já estou é a trabalhar no quarto livro, para quando o Henrique [bebé] nascer eu ficar descansado. Ainda falta um pouco para acabar, mas já sei o que vai acontecer.
Acho que os leitores vão adorar o que estou a preparar. Está a ficar uma série mesmo entusiasmante e acho que os leitores vão ficar agarrados. Estou ansioso para publicar estes livros e perceber as reações deles.
Entrevista: Tiago Matos
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