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Bruno M. Franco: "A série Mortal é capaz de chegar aos seis ou sete livros"

Estante FNAC
Por Estante FNAC
Em 27/09/2022
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Bruno M. Franco: "A série Mortal é capaz de chegar aos seis ou sete livros"

Em entrevista à FNAC, Bruno M. Franco "abre o jogo" em relação ao seu novo livro, Jogo Mortal, um thriller alucinante que promete agradar a fãs de Squid Game, Battle Royale e Os Jogos da Fome.

 

 

Nas primeiras páginas de Jogo Mortal, uma jovem é abordada na rua por um rapaz que lhe entrega uma misteriosa ficha de póquer. Vimos mais tarde a descobrir que se trata de um convite para dar entrada num perigoso jogo. Como lhe surgiu esta ideia?

 

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Já a tinha há alguns anos, porque sou fã de Os Jogos da Fome e sempre quis desenvolver uma mistura de policial realista com Os Jogos da Fome, mas num universo próprio.

Decidi criar a Helena, uma estudante "normal", com objetivos de vida, que, devido a problemas financeiros da família, fica a saber que os seus sonhos futuros estão em causa. Tenho a certeza de que muita gente se vai identificar com isso.

Quis ter uma personagem com quem os leitores se identificassem para, depois, os pôr a pensar. Porque ela vai passar por vários desafios mortais em que encontrará problemas éticos sobre o valor da vida humana. Queria que as pessoas lessem e se perguntassem: se fosse eu, o que faria? Seria capaz de matar esta pessoa?

 

 

Referiu Os Jogos da Fome, mas esta é uma premissa que também faz lembrar a da popular série sul-coreana Squid Game – embora o Bruno já tenha deixado claro que escreveu o seu livro antes de a série estrear.

 

Sim, é verdade.

 

 

A certa altura, até inclui no livro uma referência direta a Squid Game, bem como a Battle Royale, de Koushun Takami.

 

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Acrescentei a referência a Squid Game já durante a fase de revisão. O meu livro começava de forma muito semelhante à série, porque, originalmente, em vez de haver a entrega de uma ficha de póquer, era um cartão-de-visita. Quando vi que Squid Game também começava assim, achei melhor fazer algumas alterações, senão as pessoas iam pensar que eu tinha copiado.

 

 

Acha que Jogo Mortal agradará aos fãs de todas essas histórias?

 

Acredito que as pessoas que gostaram de Squid Game e de Os Jogos da Fome vão gostar muito do meu livro, porque é verdade que há semelhanças.

No entanto, a minha principal inspiração até foi mesmo o Battle Royale, que li há uns dois anos. É claro que o meu livro também não é igual a esse, mas tentei transmitir a mesma energia.

O que eu mais gosto nestas histórias é a luta pelo valor da vida humana. São várias pessoas em jogo que, para sobreviver e vencer, têm de matar outras. O ser humano muitas vezes transcende-se quando percebe que a sua vida está em risco. Mas a minha vida valerá mais do que a tua? Adoro esse tema.

 

 

Além da luta pela sobrevivência, também quis explorar os potenciais efeitos do vício?

 

Sim. Há dois ou três anos, com o boom das apostas desportivas online, tive curiosidade e decidi apostar umas quantas vezes, embora com valores muito baixos. Percebi em primeira mão os efeitos que aquilo pode ter. Quando ganhamos, a sensação é tão boa que queremos apostar mais; quando perdemos, sentimos que temos de apostar ainda mais para recuperar o que perdemos.

Eu senti isso na pele. Fui investigar sobre o vício do jogo e fiquei chocado com o que encontrei. Quis passar essa informação para o livro, para alertar os leitores de que há pessoas que ficam com as vidas arruinadas por dívidas, que começam a roubar às próprias famílias, é uma desgraça enorme. A personagem do Rui, viciado no jogo, foi criada por isso.

Quis que os leitores percebessem que apostar pode ser divertido, mas que tem de ser feito com muita cautela.

 

 

O conceito de jogo é algo que extravasa a narrativa e o próprio livro tem um pequeno jogo incorporado nas suas páginas. Sem revelar demasiado, para não estragar a surpresa, porque decidiu dar este nível adicional ao seu livro?

 

[Risos] Pois, não podemos falar muito disso para não estragar a surpresa, mas foi uma ideia da editora e eu adorei. É algo inovador que eu nunca vi em Portugal nem no estrangeiro. Se calhar até existe, mas eu não conheço. Acho que os leitores vão ficar surpreendidos e que qualquer pessoa vai adorar o desafio extra.

 

 

Jogo Mortal é não só o seu segundo livro, mas também o segundo livro de uma série iniciada com Segredo Mortal, que se tem provado muito popular entre os fãs de thrillers em Portugal. Esperava alcançar tamanho sucesso com o seu livro de estreia?

 

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Tanto se calhar não. Escrevi o Segredo Mortal em 2014 e sempre acreditei muito nele e nas suas possibilidades de sucesso. Tanto que nem sequer escrevi mais nenhum enquanto não arranjei uma editora "como deve ser" para o publicar.

Quando o livro foi publicado [em 2021], dei tudo por ele e pela sua divulgação. E as pessoas ficaram muito entusiasmadas, embora nem soubessem quem eu era. Percebi nessa altura que era capaz de correr bem, mas nunca pensei que corresse tão bem.

O livro foi bastante falado e, um ano e meio depois, continua a ser referido nas redes sociais. Não estava à espera de tanto, mas fico muito feliz. É algo que aumenta a minha responsabilidade para os próximos.

 

 

Por falar nos próximos livros, em Portugal não existe uma verdadeira cultura de longas séries literárias unidas por personagens, pelo menos em comparação com outros países, mas o Bruno parece querer manter-nos durante mais algum tempo com os inspetores Leonardo Rosa e Marta Mateus.

 

É verdade. A série já tem dois livros, haverá pelo menos quatro de seguida e eu creio que é capaz de chegar aos seis ou sete, embora dependa um pouco da aceitação do público.

Tenho receio em fazer uma série muito prolongada. Por exemplo, gosto muito da série de livros do Gabriel Allon, escrita por Daniel Silva, mas neste momento já vai no 21.º ou 22.º livro e já não sinto "aquela" vontade de os ler como sentia no início.

 

 

Mas, para já, a sua dupla de protagonistas funciona bem?

 

Sim, acho que resulta muito bem. Pelo que tenho lido e ouvido, as pessoas gostam muito da química entre eles – e também do contraste, porque o Leonardo é mais cerebral, não se dá tanto às pessoas, e a Marta tem o coração na boca e faz o que quer.

A relação é muito engraçada. E depois há uma tensão entre eles – que, dependendo do contexto, pode ou não ser sexual. As pessoas acham que eles gostam um do outro, mas que "está difícil de chegar lá". Gosto de jogar com isso.

 

 

O Bruno revelou, no passado, que a escrita surgiu na sua vida após o falecimento da sua mãe, como uma forma de escape que o ajudava a aliviar o sofrimento. Escrever continua a ter esse condão? Ou neste momento já encara a escrita de uma forma diferente?

 

Quando a minha mãe faleceu, eu tinha 14 anos e foi um golpe muito duro. Na altura, fazia natação de competição, o que me ajudava a descarregar a frustração e a tristeza, mas senti que precisava de mais, de descarregar também ao nível emocional, e apeteceu-me escrever.

Nunca tinha pensado em escrever, mas ajudou-me muito a fugir àquelas sensações, porque naquele momento eu não queria ser o Bruno. Queria ser outras personagens. Por exemplo, um inspetor que investiga crimes e é um herói.

Agora é diferente. Passaram muitos anos. Não digo que agora seja uma profissão, mas é uma paixão que mantenho e adoro. Sinto-me feliz a escrever. E, agora que estou a publicar o que escrevo, gosto de pensar como os leitores vão reagir. Agarro-me muito à ideia de trazer bons momentos e boas leituras às pessoas.

 

 

O Bruno trabalha na área da saúde, que é uma área tipicamente atarefada. Quando arranja tempo para escrever?

 

Sou radioterapeuta no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa. Trabalho à tarde e escrevo quando é possível. Costumo dizer que sou escritor em part-time.

Quando era solteiro, era mais fácil. Entretanto casei – e também temos um cão, que exige muita atenção –, por isso geralmente escrevo à noite. Depois de jantar, a minha mulher adormece cedo e eu aproveito e vou escrever para o computador.

No entanto, o futuro é uma incógnita, porque vou ser pai daqui a umas cinco semanas e sei que a minha rotina vai mudar. Mas continuarei a tentar aproveitar o tempo livre para escrever. Pelo menos uma horinha por dia.

 

 

Suponho que também aproveite o tempo livre para ler.

 

Costumo ler mais nos transportes. Por vezes nos intervalos do trabalho.

 

 

Pode recomendar-nos algum livro que tenha lido recentemente e do qual tenha gostado?

 

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Posso recomendar dois. O primeiro chama-se Isto Vai Doer e é um livro escrito por um médico de obstetrícia. Achei muito engraçado. E também desmistifica um pouco a sua área.

O segundo faz parte de uma série policial da dupla sueca Hjorth e Rosenfeldt, que é uma série espetacular. Identifico-me muito com ela porque, além de ter casos muito bons, explora a vida das personagens principais. É algo que também tentei fazer neste meu segundo livro.

A série começa com o livro Segredos Obscuros. Recomendo a todos.

 

 

Não resisto a perguntar: nos últimos anos tem publicado no seu blogue vários contos com um pendor natalício. Gosta especialmente do Natal?

 

[Risos] É verdade, nos últimos anos tenho escrito sempre um conto de Natal. Não sei bem porquê.

Gosto muito do Natal. Sempre gostei. Antigamente, com a minha mãe, era mais especial, porque ela adorava decorar a nossa casa inteira. Quando ela faleceu, tivemos dois ou três anos em que nem sequer tínhamos árvore de Natal.

Eu associo muito o Natal à minha mãe, a um tempo em que tudo era bom e não tínhamos preocupações. Tento, em cada conto, passar alguma mensagem de solidariedade e amor, porque gosto tanto da época que quero embelezar a de outras pessoas.

Enquanto puder, hei de escrever contos de Natal.

 

 

Já pensou em reunir todos esses contos numa coleção temática?

 

Nunca pensei em publicar. Mas, se algum dia surgir a oportunidade, estou aberto à ideia.

 

 

Já percebemos que, nos próximos tempos, vai ter a sua vida especialmente ocupada, mas já tem alguma ideia para o terceiro livro da saga Mortal? Já o começou a escrever?

 

O terceiro livro já está escrito. Assim que soube que a minha mulher estava grávida, achei melhor adiantar trabalho. Já está com a editora e será publicado nos primeiros sete ou oito meses do próximo ano.

Agora já estou é a trabalhar no quarto livro, para quando o Henrique [bebé] nascer eu ficar descansado. Ainda falta um pouco para acabar, mas já sei o que vai acontecer.

Acho que os leitores vão adorar o que estou a preparar. Está a ficar uma série mesmo entusiasmante e acho que os leitores vão ficar agarrados. Estou ansioso para publicar estes livros e perceber as reações deles.

 

 

Entrevista: Tiago Matos

 

 

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