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Joël Dicker: “Um crime é uma boa maneira de unir as personagens”

BlogFNAC3
Por BlogFNAC3
Em 08/07/2020
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Joël Dicker: “Um crime é uma boa maneira de unir as personagens”

O Enigma do Quarto 622 marca o regresso de Joël Dicker aos thrillers. Neste livro, após a morte do seu editor, o escritor Joël Dicker decide ir de férias, mas descobre que, no hotel onde está hospedado, houve um assassinato. As férias vão dar lugar à investigação deste crime do passado, nunca resolvido. Em entrevista à FNAC, o autor fala sobre o novo livro e a sua paixão por escrever histórias. 

 

o enigma do quarto 622

 

Entrevista: Sónia Castro
Fotografia: Jeremy Spierer
 

Em O Enigma do Quarto 622 encontramos uma personagem que se chama Joël Dicker, é escritor e vive em Genebra. Qual é a linha que separa o Joël, escritor, do Joël, personagem do livro?

 

Ele é principalmente uma personagem do livro.

Para mim, foi engraçado criá-lo, porque quando escrevi A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, muitas pessoas pensavam que o Markus Goldman [personagem principal do livro] era eu. E eu expliquei que não. O nome dele é Marcus e o meu é Joël Dicker. Não é a mesma pessoa.

 

A-verdade-sobre-o-caso-Harry-Quebert
 

Desta vez, decidi colocar o meu nome na personagem para ver que efeito isso teria nos leitores.

 

 

Então esta personagem não tem nada do verdadeiro Joël Dicker?

 

Não há nada de mim na história, porque é uma ficção. Há um assassinato. Não é a realidade.

Mas em alguns momentos, surge o meu editor, Bernard de Fallois, que realmente existiu [Fallois morreu em 2018]. Isso é real. Então, nesses pequenos momentos da história, sou eu. Mas no resto da história não sou eu. Uso esse nome, Joël, também na parte ficcional, porque acho que fazia mais sentido ter o mesmo nome para aquele que conta a história do Bernard e aquele que conta a história da parte da ficção.

 

 

Este livro acaba por ser uma homenagem ao seu editor. O que é que encontramos de ficcionado e de real nesta personagem?

 

Há uma parte sobre ele que é realmente real. É exatamente do jeito que ele era. E por isso é muito real.

Nesses momentos, a personagem Joël é sobre mim, porque estou com o Bernard naqueles diálogos. Então essa é a realidade. Mas toda a parte da investigação não sou eu.

 
 

A presença de Bernard de Fallois, um homem tão importante na sua vida, faz deste um livro muito emocional para si.

 

Sim. Depois da morte dele em 2018, eu queria que fosse lembrado. Foi assim que decidi escrever sobre ele. E é a primeira vez que escrevo sobre alguém ou algo real para mim.

Mas eu tinha de fazer isto. Eu realmente queria partilhar o Bernard com os meus leitores.

 

 

Como surgiu a ideia para este livro?

 

Eu diria que foi o Bernard novamente. Porque eu não comecei com a parte da ficção. Eu realmente comecei a escrever sobre o Bernard. 

Eu queria guardar muitas das memórias que eu tinha dele. Queria escrevê-las. E foi o que eu fiz. Depois pensei que deveria escrever sobre ele para que os meus leitores pudessem conhecê-lo. E comecei a fazê-lo.

Enquanto isso, pensei que precisava de algo mais. E porque o Bernard gostava muito de romances e literatura, achei que deveria inserir essas memórias numa aventura ficcional. E essas duas partes juntas, para mim, seriam a melhor forma de lembrar o Bernard.

 
 

Não é a primeira vez que escreve sobre um crime e a sua resolução. Porquê este interesse?

 

Acho que um crime é uma boa maneira de unir as personagens.

Este livro é sobre amor, é sobre pessoas diferentes e é sobre relações. Todas as personagens têm a sua própria história pessoal e background. E para mim, um assassinato é algo comum a todos.

Quando construímos uma casa, temos a pedra e, em seguida, colocamos o cimento para manter as pedras juntas. O crime é o cimento da história, porque é o que reunirá todas as personagens no livro.

 

“O crime é o cimento da história, porque é o que reunirá todas as personagens no livro.”



Pela primeira vez, a ação de um livro seu acontece na Suíça, no coração de Genebra, sua cidade natal, e nos Alpes suíços. Os locais do livro pretendem ser uma descrição fiel ou está mais focado nas emoções que eles lhe trazem?

 

Ambos. Verbier, nos Alpes, é mais ficcional.

Mas Genebra, é a cidade onde moro e onde cresci. É a minha cidade. Havia uma espécie de dificuldade para mim de descrever Genebra, porque no início eu não queria descrever Genebra sobre os factos, dizendo concretamente como são os lagos, os prédios e as ruas. Eu realmente queria ser capaz de descrever os meus sentimentos. E então é mais inspirado nas emoções, no que sinto quando estou em Genebra, no que sinto quando vejo as ruas, quando vejo esses prédios, essa arquitetura muito particular em Genebra.

 

 

Aos 19 anos entrou numa escola de Teatro. Mais tarde, formou-se em Direito. Como é que estas áreas tão diferentes foram surgindo na sua vida?

 

A experiência da escola de Teatro fez-me perceber que eu realmente não queria ser ator. Eu estava lá, porque tinha a sensação de que era o meu sonho. Mas depois percebi que não sentia vontade de querer esforçar-me muito ou tanto quanto o resto das pessoas. Eu tinha colegas que ficavam a trabalhar no texto durante imensas horas e isso fez-me perceber que eu não tinha essa vontade.

Quando queremos fazer alguma coisa e queremos trabalhar mais, nós estamos realmente comprometidos. E percebi que tinha que encontrar algo na minha vida com que me comprometesse, pelo qual fosse realmente apaixonado.
 
Então, ir para a escola de Teatro deu-me as ferramentas e ajudou-me a perceber que o que eu realmente queria fazer era escrever.
 
Quanto ao Direito, deu-me uma boa visão de quais são os nossos direitos e o que devemos fazer, porque usamos a lei diariamente.
Quando vamos ao supermercado, compramos algumas frutas e damos dinheiro, é um contrato com o supermercado. Usamos a lei todos os dias, a toda a hora. Nós nem percebemos isso. O Direito foi uma experiência muito boa para entender a sociedade em que vivo.

 

 

Chegou a exercer Direito?

 

Não.

 

 

Imagina-se agora a trabalhar como advogado?

 

Talvez um dia. Não sei.
 
Os advogados são pessoas que inventam histórias. Por exemplo, um advogado precisa de criar uma história sobre o seu cliente e tentar explicar o que ele fez ou recriar a realidade para defendê-lo. E o advogado da outra pessoa faz exatamente o mesmo.
 
Eu gosto desse aspeto de ser advogado, porque ele é um contador de histórias. Ele quer que as pessoas acreditem na história que está a contar, que é exatamente o que o escritor faz. Por isso, sim, consigo imaginar-me a fazer isso.

 

 

Nesses anos em que estudou Teatro e Direito, já sabia que queria ser escritor?

 

Sim, sabia. Eu já estava a escrever, na verdade. E quanto mais eu escrevia, mais percebia que era realmente apaixonado por isso. E o que aconteceu comigo, e que parecia uma coisa má, mas foi uma coisa boa no final, é que escrevi romances e enviei para editoras em França. E todos os editores disseram: “Não, não queremos publicar isso. É muito mau.”
 
Na altura fiquei triste e desapontado, mas mesmo assim eu queria escrever outro livro. E foi uma ótima experiência, porque me fez perceber que o que me movia era escrever livros e não exatamente, no final, serem publicados. Tratava-se de todo o processo de escrever. Era realmente uma paixão para mim escrever histórias.
 
“Era realmente uma paixão para mim escrever histórias.”

 

 

Numa entrevista que deu há cerca de sete anos, disse que não lidava muito bem com o ser reconhecido na rua. Já lida melhor com a fama?

 

Sim. Agora é melhor porque já passou algum tempo.
 
Quando é o primeiro livro de um autor, é um pouco estranho, porque muitas pessoas só leram um livro dele. E então não há muito a dizer. Então as pessoas vinham ter comigo e diziam: “Vou ler o seu livro.” Eu dizia: “É muito simpático da sua parte.” Mas não havia assunto para conversar. Eu sou um escritor, mas se aquela pessoa não leu o meu livro, o que devemos dizer quando nos encontramos na rua? Foi um sentimento estranho.
 
Agora muitas pessoas ainda me abordam na rua, mas dizem: “Eu li este livro e li aquele, e gosto muito do seu trabalho, ou prefiro esse livro ao outro.” Elas conversam. Quando isso acontece, fico muito satisfeito, porque a conversa é sobre livros, é sobre literatura.
É fantástico, porque podemos discutir sobre o meu trabalho. E essa é a verdadeira conversa. Então eu lido bem com isso.
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