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Revista ESTANTE

Valter Hugo Mãe: "Há uma violência subjacente à irmandade entre Portugal e Brasil"

Estante FNAC
Por Estante FNAC
Em 23/09/2021
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Valter Hugo Mãe: "Há uma violência subjacente à irmandade entre Portugal e Brasil"

Em entrevista à FNAC, Valter Hugo Mãe fala sobre o seu novo romance, As Doenças do Brasil, e examina alguns dos momentos mais marcantes na complexa história entre Portugal e Brasil.

 

 

Na última vez que o entrevistámos, por ocasião da publicação de Contra Mim, revelou que andava há anos a escrever este seu novo livro, As Doenças do Brasil. Como descreveria o processo de escrita, tendo em conta que já não publicava um novo romance há cerca de oito anos?

 

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Andei à procura deste livro com muito cuidado. A ideia de escrever sobre o Brasil era uma ideia muito antiga e que, inclusive, precedia a escrita dos meus romances, mas não me pareceu oportuno escrever antes. Foi-me fundamental conquistar o direito de escrever este texto.

O que quero dizer com isto é que não quero ocupar um espaço de uma voz que pertence por natureza aos povos originários ou aos povos negros – porque esta história tanto dirá respeito às peles vermelhas como às peles negras. Ao escrevê-la, estou a ocupar um lugar de escuta, mais do que de fala. É a minha forma de dizer que enfrentei o assunto e meditei sobre ele.

Isso levou-me tempo. Não o queria fazer de súbito. Precisei de meditar acerca do que sinto que tenho legitimidade para dizer acerca da questão vermelha e negra do Brasil.

 

 

Como referiu, o romance acompanha uma tribo indígena brasileira, os abaeté. Inspirou-se no seu encontro com o cacique dos anacés, durante a 12.ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, em 2017?

 

Sim. Foi um encontro muito luminoso. A trama essencial do livro e as suas ideias são precedentes, mas o encontro com os anacés foi fundamental para decidir que efetivamente era este o livro brasileiro que eu haveria de escrever.

Até lá, vinha seduzido por hipóteses várias. Uma das ideias que mais mexia comigo era a de viver no Brasil por seis meses ou um ano. Tinha muito interesse em ficar num lugar de estrada, longínquo, onde houvesse apenas um pequeno posto de gasolina e quatro ou cinco casas. Durante muitos anos, foi essa a minha ideia romântica para um livro: queria passar pela experiência de viver numa imensa estrada onde ninguém permanece.

No entanto, quando estive com os anacés, percebi que precisava de me dirigir ao Brasil originário, ou seja, que a questão que se me impunha era refletir sobre os puros brasileiros que independeram sempre dos povos brancos e dos europeus.

 

 

O Valter parece ter uma ligação muito forte e emocional ao Brasil. Porque acha que existe essa conexão?

 

Fui muito marcado pela cultura brasileira. Cresci rodeado pelos livros, pela música, pelas telenovelas brasileiras. Embora à distância, o Brasil trouxe sempre a sua cultura muito perto.

Hoje, sinto que é impossível não encontrar em mim traços de uma identidade mestiça que, sendo profundamente portuguesa, não deixa de ser também um pouco brasileira.

 

 

No seu novo romance acompanhamos um jovem chamado Honra que foi o resultado da violação de uma índia por parte de um inimigo branco e que, por isso, cresce revoltado com a cor da sua pele. Porque sentiu necessidade de contar esta história?

 

Porque, para mim, a história dos brancos com os índios e até com os negros é na ordem do estupro. Uma mestiçagem forçada e violenta.

De facto, hoje podemos encarar os brasileiros como um povo moreno. E os portugueses também. Gilberto Freyre até dizia que somos o povo mais mestiço da Europa. Mas é importante perceber que esse encontro de culturas, essa mistura que resulta nas culturas portuguesa e brasileira, é uma mistura que começa por ser violenta.

Há uma violência subjacente a esta irmandade. O nosso tremendo país irmão foi também um espaço para a nossa perversão e violência.

 

 

A propósito de violência, as mulheres – ou "femininas", no idioma dos abaeté – começam por rejeitar o Honra e a sua própria tribo vê-o como uma lembrança constante do inimigo. A situação só muda quando ele recebe uma missão especial: aprender a língua dos brancos e fazer uso da sua cor para se infiltrar e destruir o inimigo. Tendo isto em conta, parece-lhe adequado descrever o seu novo livro como um livro de guerra?

 

Eu vejo este livro como uma aventura entre guerreiros. Aliás, no livro não há homens: há guerreiros e femininas. E eles estão constantemente a dizer que a guerra deles é boa.

Hoje em dia, podemos perspetivar as guerras de muitas maneiras, mas o que os brancos fizeram contra os povos vermelhos foi uma guerra que os tentou exterminar. É muito importante que lembremos que, à chegada dos portugueses ao território do Brasil, em 1500, se estima que existissem cerca de seis milhões de indivíduos originários. À saída dos portugueses, por ocasião da independência do Brasil, existiriam apenas dois milhões.

Enquanto todos os povos em todo o planeta progrediam e se multiplicavam, os povos originários foram dizimados e diminuídos a uma percentagem muitíssimo menor. Isto significa que a influência dos portugueses no desenvolvimento desses povos foi profundamente assassina. Foi uma incidência mortífera, feroz e impiedosa. Uma guerra.

 

 

Passando para outro povo que também foi sujeito a uma opressão severa, a certa altura aparece na aldeia dos abaeté um rapazito negro, fugido da escravatura, a quem é dado o nome de Meio da Noite. Numa das suas notas finais, o Valter escreve: "Julgo que apenas com a morte do meu pai chorei como à escrita de alguns destes capítulos e teve sempre que ver com a figura de Meio da Noite." Pode explicar porquê?

 

Porque já não sei o que fazer à estupidez humana que reincide no preconceito, desde logo em relação às pessoas negras. Eu nasci em Angola e toda a vida me habituei a pensar que as pessoas negras são exatamente isso: pessoas. É com uma perplexidade tremenda, acompanhada por uma tristeza profunda, que vejo perdurar o racismo.

Por sua vez, foi sempre minha intenção meditar sobre o encontro dos negros com os vermelhos.

No século XIX, quando mais perto estávamos da abolição, mais negros fugiam, porque as suas consciências se revoltavam. Os negros deixavam de ser tão submissos e começavam a reclamar a sua liberdade e saúde. Em simultâneo, com o aparecimento cada vez mais disseminado dos mocambos e dos quilombos [locais de refúgio para escravos], muitos negros em fuga acabavam por encontrar ao acaso as populações indígenas.

Eu queria muito falar sobre isso. Queria muito que o meu livro fosse sobre o encontro casual de uma comunidade indígena por parte de um negro.

Para mim, quando o Meio da Noite aparece, o livro torna-se delicadíssimo. Comove-me profundamente como ele começa por ser tratado apenas como um animal mas paulatinamente vai ganhando o seu esplendor. E como o Honra aprende que aquele sujeito é feito de esplendor...

 

 

É curioso que a ligação que se forma entre ambos começa por acontecer apenas porque o Honra é a única pessoa com quem o Meio da Noite consegue comunicar. Este livro também é, até pelo estilo com que está escrito, uma examinação da linguagem – e sobre como, em simultâneo, nos une e separa?

 

Sem dúvida! É todo ele um estudo sobre como o que dizemos influi no que pensamos e acreditamos.

Os abaeté são construídos por convicções que têm muito que ver com a sacralização da palavra. E a palavra é usada como se fosse uma forma de feitiço. Por isso, eles vivem num lugar de um certo encanto. E essa proteção divina é exercida através daquilo que se diz e se cala. Entre o que se entoa e se silencia.

O livro é um longo poema sobre a força mágica, reveladora e criadora da expressão verbal.

 

 

O que gostaria que os seus leitores retirassem da história?

 

Espero que, mesmo que não estejam de acordo com a tese que o livro levanta, estejam interessados em debates de boa-fé acerca da herança que os portugueses deixaram no Brasil. É o que me interessa: conversa de boa-fé.

 

 

Nos próximos dias, o Valter celebrará 50 anos de vida. O que ainda lhe falta alcançar na carreira?

 

Quero sempre escrever mais livros. É, no fundo, o único objetivo que tenho. Pelo menos mais um livro que me está a incomodar e ainda não escrevi.

Sempre corri pelo livro. É muito agradável o encontro com os leitores, muito gratificante o reconhecimento que possamos ter, mas o sentido de todas as coisas está verdadeiramente numa certa reclusão de onde se inventam os textos.

Por isso, aquilo que me falta é preparar novamente a reclusão e escrever um novo romance, também muito antigo, um texto que estou a adiar há muitos anos e que agora quero escrever.

 

 

Vamos, portanto, terminar esta conversa da mesma forma que terminámos a de há um ano: com o Valter a antever o seu próximo livro.

 

Eu estou sempre aflitinho com um livro novo. A minha vida é assim. Sou como aquelas pessoas que, quando terminam uma relação, começam uma nova no dia seguinte. Não sei estar sozinho. Não sei estar sem um livro. Por isso, quando termino um livro, já estou a pensar noutro.

Não digo que seja infiel, mas já andei a fazer as sumas aproximações, de maneira que, no exato momento em que um livro fecha e me abandona, vou dormir para outra casa [risos].

 

 

É uma analogia interessante.

 

E a mais pura verdade!

 

 

Entrevista: Tiago Matos

Fotografia: Rita Rocha

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