Revista ESTANTE Ler pela primeira vez: Kazuo Ishiguro
Por Blog FNAC ExpertEm 03/10/2019
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José Saramago habituou-nos que a leitura pode ser uma tarefa difícil. Se ainda não leste nenhuma das suas obras, sabe por onde começares.
Singular pela forma peculiar como articula a pontuação nas entrelinhas das suas obras, José Saramago é o autor português que mais dores de cabeça coloca aos seus leitores. Adorado por uns, detestado por outros, não é indiferente para ninguém. Se já despertámos a tua curiosidade, aceita o desafio e fica a conhecer as obras mais acessíveis do Nobel português.
Para o leitor que deseja uma leitura fluída e linear, Ensaio Sobre a Cegueira é um bom ponto de partida para a obra do autor. Pautada por uma terrível aflição ao longo das suas mais de 300 páginas, a história parte de uma cegueira coletiva que se alastra “como um rastilho de pólvora”. Aos olhos de Saramago, é “um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo”. A par com a obra anterior, no romance Ensaio Sobre a Lucidez Saramago critica as instituições do poder político. Um ensaio para quem vê o lado autoritário da democracia.
Não sendo um dos livros mais conhecidos, A Caverna transmite igualmente uma escrita compreensível ao longo das suas páginas, fugindo à regra da sua clássica maneira de escrever. A história de um mundo em rápido processo de extinção e de outro em exacerbado crescimento e transformação, assombrado pela ilusão enganosa de progresso.
Conteúdos à parte, estas obras refletem um Saramago que se debruça sobre temas mais universais de crítica à sociedade. Nelas encontramos um aproximar ao cânone do português e à exposição linear dos acontecimentos. Esta clareza na narrativa permite ao leitor comum continuar a leitura sem o retrocesso a páginas anteriores.
José Saramago divertia-se, palavra após palavra, sem pontos nem vírgulas. “Há como que uma recusa minha de qualquer coisa em que eu me divertia, que era uma espécie de barroquismo, qualquer coisa que eu não conduzia, mas que de certo modo me levava a mim.” Em Intermitências da Morte parece existir um aproximar da pontuação correta ao nível do português. Ainda assim, Saramago não descarta o sarcasmo e a carga irónica que acompanham a sua escrita. Em mais uma reflexão crítica à sociedade moderna, o autor divaga sobre a vida, a morte, o amor e a falta dele na nossa existência.
O Nobel português fez igualmente chegar aos leitores dois contos para os mais jovens. Em “A Maior Flor do Mundo”, Saramago entra dentro do próprio livro e transforma-se em personagem, questionando a sua capacidade de escrita e o facto de ser capaz de algum dia escrever uma história para crianças. Hoje confirmamos, conseguiu mesmo. Já a partir de uma recordação de infância, é em “O Silêncio da Água” que o escritor compõe uma fábula transbordada de sabedoria. Publicado em junho de 2011, assinalando o primeiro aniversário da sua morte, o conto baseia-se num trecho do livro As Pequenas Memórias.
Por Estante FNACEm 03/10/2019
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